Captulo 1
Desenvolvimento emocional
Wagner Rocha Fiori 
1.1 A fase anal 
1.1.1 A criana dos 2 aos 3 anos 
O incio do segundo ano de vida ir marcar as conquistas infantis de autodomnio e socializao. 
Joseph Stone denomina esta etapa, situada tipicamente por ele entre o dcimo quinto e o trigsimo 
ms, de perodo do toddler, ou seja, daquele que se est organizando a partir do andar. Esta etapa  
caracterizada pela intensa exploso muscular e movimentao infantil. A criana emerge dos 
primeiros passos inseguros, do andar na ponta dos ps, braos erguidos para tentar um difcil 
equilbrio, atingindo a corrida livre no final do terceiro ano. Vem de uma coordenao psicomotora 
ainda desajeitada, agravada pelas roupas que ainda no se amoldam bem a seu corpo, pelas fraldas 
que lhe parecem perturbar o centro de equilbrio, pelas botas que o assemelham s figuras de 
Portinari. O deslocamento  saltitante, desequilibrado para a frente, afigura-se um querubim barroco 
buscando o vo. Comea a se introduzir no mundo das pessoas. Pode correr para a me ou para o 
pai, pode procurar o carinho particular de um tio ou de um adulto prximo. Ainda v o mundo de 
baixo para cima, assustando-se freqentemente ao ver que as pernas que agarrara no pertencem 
ao pai, mas a um estranho. 
J pode manifestar a recusa. O terceiro organizador de Spitz, o aparecimento do no, situa-se por 
volta do dcimo quinto ms. Delicia-se em aceitar e recusar, em definir escolhas. Para Spitz, o 
no define a passagem de uma predominncia dos processos primrios para os secundrios. 
Diante da frustrao, em vez de voltar-se para a fantasia, pode definir uma recusa e trabalh-la na 
realidade. Pode expressar a recusa, e pode comemorar com gozo seus feitos vividos como hericos. 
Na organizao psicomotora, as segmentaes comeam a se estabelecer. Pode sentar sobre um 
caixote e balanar alternadamente suas pernas, divertindo-se com o movimento e o rudo. Mas ainda  prenhe 
de sincinesias, ou seja, de movimentos parasitas que interferem em sua realizao prxica, principalmente nos 
envolvimentos musculares globais, contaminando a motricidade mais especfica, e nas contaminaes 
homolaterais. Se uma mo se dirige para um objeto, num movimento rpido, a outra a acompanhar. Os 
movimentos de pulso e dedos provocaro movimentos homolaterais similares. As caretas so freqentes na 
tentativa de realizao de movimentos finos. E ainda preciso um bloqueio corporal para que o gesto mais 
preciso se realize. S se libertar das sincinesias aos 7 anos, quando os dedos alcanaro a prontido 
necessria para a escrita. Seu funcionamento no segundo e terceiro anos  caracterizado por uma atuao 
muscular global. Arroja-se como uma totalidade para o colo, para a cama, para os brinquedos. Alterna 
momentos de concentrao, onde j tenta alguma organizao dos brinquedos, com exploses motoras, onde 
mais se assemelha a um trator de demolies. Mas, com um charme que deixa os pais deslumbrados, comemora 
sempre cada conquista ou cada demolio. Referindo-se s crianas pequenas, Neil, criador da famosa escola 
Summerhill, diz que suas casas deveriam ser construdas pelos ferreiros da cidade. No h superfcie mais 
atraente para se passar um prego do que a tampa envernizada de um piano. 
Erik Erikson caracteriza esta etapa de desenvolvimento como sendo a da crise psicossocial da autonomia. A 
esta fase, Erikson chama de fase muscular-anal, tanto pelas modalidades de relao e fantasias anais descritas 
pela psicanlise, quanto pelas atividades musculares ligadas  autonomia dentro das relaes sociais de incio 
de vida. O incio da socializao  processado neste perodo. O treino de esfncteres, primeira cobrana externa 
de socializao, est em franco desenvolvimento. A criana pode sentir-se capaz de organizar seu corpo de 
modo a desempenhar as tarefas esperadas. Pode andar, pode falar, pode reter e expelir seus excrementos. Cada 
realizao, que  externamente aplaudida, soa-lhe como uma vitria. Cada fracasso no  bem compreendido. 
No pode entender por que  repreendida por se sujar, se maturacionalmente no pode perceber quando isto 
acontece. Os olhares ou gritos de reprovao apenas a desestruturam. Erikson caracterizou este sentimento de 
inadequao utilizando conjuntamente os termos vergonha e dvida. E esta a contrapartida da autonomia. 
Pega em flagrante, no pode entender a cobrana, no se pode estruturar. Erikson compara esta situao  do 
adulto, ao ser surpreendido no banheiro com as calas abaixadas. No  um sentimento de ter feito coisas 
erradas, mas sim de estar inadequado. Poder levar a projetar agressivamente sua inadequao, seus produtos 
que em fantasia se confirmam como 
maus e destrutivos, como veremos depois nas organizaes paranides, ou s tentativas rgidas de domnio e 
controle, onde os aspectos evolutivos da afetividade sero encobertos pela tnica pura e simples do controle, 
como ocorrer na estrutura obsessiva. 
O desenvolvimento da autonomia trar, como caracterstica curiosa, o desenvolvimento de comportamentos de 
oposio. O no recentemente adquirido ser exercitado na demonstrao ostensiva de seus desejos e 
aquisies. Uma criana de dois anos recebe a ordem do pai de descer da escada e responde firmemente um 
no. Repeti-lo- a cada pedido, mas, se o pai vira as costas, provavelmente descer sozinha. No pretende na 
verdade se opor ao pedido do adulto, mas firmar a comemorao do grande feito de ter subido um degrau. Est 
internalizando a preservao de suas conquistas e de sua vontade. Em termos prticos para os pais, isto no 
significa que a criana deve ser liberada para fazer o que quiser. Se  verdade que a criana necessita de 
guardar posies,  igualmente verdade que uma das tarefas fundamentais dos pais  transmitir aos filhos uma 
ideologia coerente do mundo, e as discriminaes iniciais do permitido e do proibido dela fazem parte. E lgico 
que as atividades musculares, caractersticas deste perodo, no permitem aos pais possuir uma casa estilo 
vitrine de exposies, repleta de objetos frgeis. Mas a casa tambm no precisa ser de ferro e concreto. Se  
importante pular e correr,  tambm importante a internalizao do proibido. A existncia de lugares-tabu, como 
a escada, a estante, o televisor, j pode ser definida. A criana tem condies de entender, a seu nvel, que 
estes lugares lhe so vetados. A criana no entender nossas verdadeiras razes, e freqentemente o uso de 
sucessivos porqus no ser um pedido de entendimento, mas uma tentativa de manter o adulto 
conversando com ela por mais algum tempo. O porqu torna-se uma palavra mgica que permite receber um 
pouco mais de ateno. Mais vale, portanto, um carinho e uma posio firme, do que nossa retrica explicativa, 
intil para a compreenso infantil. Mas devemos ter claro que os lugares-tabu devem ser restritos. Caso 
contrrio, no s a atividade muscular infantil ser inibida, como a maior parte das intervenes parentais 
sero destinadas a impor proibies.  difcil manter um bom vnculo afetivo onde h a dominncia do no. 
No brinquedo, teremos tambm a caracterizao da progressiva passagem de um eu individual, que se 
organiza, para os nveis sciorelacionais. A criana pequena joga o que  chamado de brinquedo paralelo. Ela 
se interessa por ter crianas consigo, mas as outras so consideradas como se fossem objetos de brincar. 
Servem para ser empurradas e trombadas, servem de suporte para as atividades onde mais de um pode brincar. 
S so realmente percebidas quando 
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tomam o brinquedo do protagonista, mas assim mesmo a investida furiosa  mais destinada  
recuperao do objeto do que a atingir o oponente. Podemos considerar um certo nvel de 
socializao,  medida que o clima ldico fica estimulado e novas variveis prazerosas da inter-
relao podem ser vivenciadas. Mas o outro ainda  objeto. No raras vezes, alm de apalpado,  
lambido para se saber que gosto tem. 
Num segundo momento, o jogo coletivo fica estabilizado. As crianas elegem atividades comuns. Se 
esto juntas em um parque a primeira que se desloca para a caixa de areia  seguida por todas. 
Depois, todas vo para a gaiola, para o escorregador, ou simplesmente correr. A atividade comum 
fica delineada, embora dentro dela seja cada um por si. No final da fase anal, os jogos dramticos j 
assumem importncia. Caracterizam-se por jogar com uma imitao diferenciada. A criana imita o 
pai indo ao trabalho, imita a me varrendo a casa. O desempenho das tarefas e funes sociais 
comea a ser vivenciado em um nvel transicional, para se usar a linguagem de Winnicott. Estas 
relaes so inicialmente vividas atravs das intemalizaes dos papis parentais. Na fase anal, a 
definio sexual ainda no est estabelecida. As modalidades ativo-passivo j definem seus 
rudimentos, mas o masculino e o feminino no foram alcanados. Num jogo de casinha, usualmente 
o menino  o pai, mas tambm poder ser a me, cedendo  menina o lugar de pai. Os papis so 
experienciados, mas as definies s viro com as identificaes defensivas da soluo do complexo 
de dipo, na fase flica. O reconhecimento do outro como um parceiro com quem se joga, e no 
com o que se joga, parece tambm ser reservado para o perodo edpico. 
1.1.2 A organizao anal 
Cada fase, no sentido psicanaltico, se define por uma organizao particular da libido. A erotizao 
que durante o primeiro ano de vida foi oral torna-se agora anal. Tal qual vimos na oralidade, havia 
um elemento central de organizao das fantasias, a boca, mas que no era o nico elemento ertico 
vivenciado. Agora definimos a fase anal a partir de um elemento tambm central de organizao das 
fantasias, ou seja, o erotismo anal. Mas em tennos mais prticos, podemos pensar a fase anal como 
a fase dos primeiros produtos. O andar  uma produo pessoal, tambm o  o falar. Mas os 
produtos que realmente so sentidos como os primeiros objetos concretos e reais gerados pelas 
crianas so suas fezes e urina. As fezes so os primeiros produtos sobre os quais se tem controle. 
O treino de esfncteres  iniciado com o controle das fezes, 
sendo que o da urina s  atingido cerca de um ano depois. Expelir as fezes  fazer fora para pr 
algo fora,  assumir o domnio do que se quer que acontea. Reter a urina  um esforo de se 
impedir um reflexo de distenso do esfncter urinrio, portanto  manter o controle para que algo no 
acontea. Evolutivamente  mais fcil provocar a descarga pela fora muscular do que efetuar um 
controle de reteno. Podemos dizer que a modalidade expulsiva antecede a retentiva, ou seja, que a 
projeo antecede o controle. Voltamos de novo ao suporte analtico da psicanlise. Abraham, ao 
sistematizar as idias de Freud sobre a evoluo da libido, subdivide a fase anal em duas etapas. A 
primeira  caracterizada como a fase anal de expulso, dando como mecanismo defensivo bsico a 
projeo. A segunda  a fase anal de reteno, dando como modalidade defensiva os mecanismos 
de controle (racionalizao, intelectualizao, formao reativa, isolamento). Temos de novo uma 
organizao biolgico-evolutiva de base servindo de suporte s organizaes psquicas. 
Em termos psicanalticos, o estabelecimento destes primeiros produtos, ou seja, das trocas, no  
simplesmente um processo estanque de dar ou receber. Implica uma modalidade psicolgica ampla, 
que envolve basicamente como o mundo receber o que a criana  capaz de produzir. A 
socializao e a internalizao de valores estaro ligados  receptividade que seus produtos tero no 
mundo. Isto lhe dar a dimenso de sua capacidade de produzir coisas boas, de sentir que pode 
entrar para o mundo, pois ela  boa e aceita, e seus produtos so bons e geradores de amor. 
Voltamos a frisar que a tica e a esttica se confundem para o pensamento infantil. O belo, o bom e 
o amor so correlatos. Igualmente, o feio, o mau, o sujo e o dio esto dentro do mesmo matiz. Tem 
sido freqentemente enfatizado que o desenvolvimento da fase anal est ligado ao desenvolvimento 
artstico. Isto  uma verdade, mas uma verdade parcial. Se este  o momento da estabilizao dos 
primeiros produtos,  o momento em que estabelecemos as relaes de adequao de tudo o que 
produzimos. O sentimento bsico de adequao, que Erikson chamou de autonomia,  o que ser 
estabilizado neste momento. Uma soluo satisfatria no s nos dar a perspectiva da produo 
artstica, como a de qualquer produo em geral. Um trabalho realizado, uma inveno, um emprego 
conquistado, uma produo artstica, tudo  sentido como sendo nosso produto. O sentimento geral 
de adequao do que produzimo,s  o que nos dar liberdade e confiana para criar e produzir. 
A organizao anal desloca o centro ertico da libido para as atividades anais. O prazer dado pela 
defecao ou pela mico  elemento que perdura, inclusive na organizao adulta. A organizaao 
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do prazer  associada a uma descarga tensional. A satisfao obtida com a defecao ou a mico  elemento 
comum de prazer. Estes temas so em geral colocados com reservas, ou dentro de crculos ntimos. No 
falamos de funes excretrias seno dentro de grande intimidade, onde a censura fica reduzida, ou ento 
atravs das piadas. A piada  sempre um elemento intermedirio, ou seja, uma espcie de sintoma, onde damos 
vazo a uma afetividade que tambm  nossa, elegendo uma situao absurda, inesperada, ou um bode 
expiatrio como depositrio de nossas fantasias ou temores. A freqncia de piadas com temas anais  um dos 
elementos demonstrativos da permanncia do erotismo anal no adulto. Tambm no  raro o tipo que 
transforma o banheiro em um salo de festas, ou seja, vai para o troninho (e o termo em si j  significativo) 
com revistas, cigarros, msica, interditando o banheiro por um tempo que perturba as eventuais necessidades 
de outros membros da famlia. Tambm no me parece gratuito que o maior custo da construo civil seja 
dedicado particularmente s cermicas, azulejos e metais dos sanitrios. Mas, se para o adulto o erotismo anal 
est subordinado  genitalidade, para a criana de dois anos ele  a dimenso dominante. H um grande prazer 
em expelir e reter. E  sobre este vnculo de prazer que sero exercidas as primeiras presses da socializao. 
Temos, portanto, uma atividade ertica cercada por uma interdio. Deve-se descarregar em hora e local 
apropriados. A relao fica determinada em vrios nveis: h o vnculo do prazer, h o estabelecimento dos 
primeiros produtos, h as interdies da socializao e h o estabelecimento das relaes afetivas pelas trocas, 
ou seja, o dar e o receber produtos. 
Neste momento, podemos apontar duas outras aquisies sociais, fundamentais ao nvel do estabelecimento 
dos primeiros produtos: o andar e o falar.  bastante sintomtico como estes trs elementos, o treino de 
esfncteres, o andar e o falar, quando em fase de aquisio, regridem diante de qualquer problemtica 
emocional mais intensa. Um acidente, a vinda de um irmo menor, uma doena, o afastamento de um dos pais, 
tudo incide diretamente sobre as novas aquisies. Os castigos ambguos, excessivos ou sentidos como 
injustos, os conflitos abertos entre os pais tero as mesmas conseqncias. 
A formao de valores , neste momento, rgida. A criana ainda  incapaz de uma tica relacional, sendo 
apenas capaz de entender o permitido e o proibido dentro de uma dicotomia absoluta. O certo e o errado devem 
estar bem definidos. A expectativa presente  a da recompensa do bem e da punio do mal. Vemos, inclusive, 
com certa apreenso, as adaptaes moralistas das histrias infantis clssicas. No conto original dos trs 
porquinhos, 
os dois preguiosos eram devorados pelo lobo, e o sobrevivente, o trabalhador, vinga-se de forma talinica, 
aparando o lobo no caldeiro fervente para devor-lo. No conto original da gata borralheira, as irms e a 
madrasta malvadas eram condenadas a calar sapatos de ferro em brasa e danar at morrer. Nas atuais 
revises, todos fazem as pazes. J presenciamos representaes dos trs porquinhos onde eles e o lobo 
terminam amigos. Se o mundo da criana  mgico e onipotente, se est experienciando uma dicotomia 
organizadora do bem e do mal, os acordos efetuados pela moral adulta, quer por seu relativismo, quer pelo 
falso moralismo de privar as crianas de finais trgicos, s podero gerar a insegurana. 
Vamos por partes. Em primeiro lugar, dizemos que esta dicotomia  organizadora, porque caracteriza uma 
primeira organizao da interao com o mundo externo, definindo os produtos ou suas conseqncias como 
bons ou maus. Ns vimos que, na definio de Melanie Klein da posio esquizo-paranide, havia uma 
dicotomizao entre o bom e o mau, tanto que os primeiros objetos da criana eram as fantasias ligadas a um 
seio bom e a um seio mau. Mas estes objetos eram elaborados na fantasia. Agora temos a definio preliminar 
de relaes externas, o acerto e o erro concreta- mente definidos. E a definio destes valores  importante 
como uma fonte de segurana para o infante. Frgil, impotente diante do mundo dos adultos, com um 
pensamento ainda mgico, oscila entre uma viso onipotente de seus feitos e a impotncia aterrorizante face a 
perspectivas de ataques que no poder evitar. A certeza de que h o bem e o mal definidos, que o mau ter 
uma punio certa e violenta,  o que lhe dar segurana para, com sua fragilidade, transitar entre os perigos 
do mundo. Pensamos que o falso moralismo que distorce a punio dos maus s servir para reduzir a criana 
 impotncia,  perspectiva de que o mau poder agir impunemente. 
O juzo absoluto de bem e de mal, pressionado por uma lei talinica que dita o olho por olho, dente por 
dente, faz parte da evoluo do homem. O primitivo cdigo de Hamurabi, da Caldia mesopotmica, j 
expressava o preceito. E a psicanlise freqentemente confirma que os padres de pensamento que dominaram 
nas organizaes humanas iniciais ainda so relaes dominantes ao nvel do inconsciente. Esta definio 
absoluta  adaptativa em um certo momento da vida,  organizadora e gera proteo. O problema apenas surge 
quando a dicotomia  exacerbada e mantida em etapas posteriores da vida, formando tipos rgidos e 
defensivos. O mal absoluto interno, que o paranico projeta e cobre o mundo, e a hiper-rigidez formal e 
imobilizadora do obsessivo so organizados dentro deste superego anal. 
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1 1.3 A sexualidade na fase anal 
1.1.4 A psicopatologia da fase anal 
A definio masculino-feminino ainda no se configurou neste momento. A sexualidade est iniciando sua 
organizao, estruturada na dicotomia ativo-passivo, O erotismo anal  um erotismo muscular, e as relaes 
ativas ou passivas na obteno de prazer sero organizadas a este nvel. A atividade, como caracterstica 
:asculina, deve sofrer tanto o peso de fantasias filogenticas quanto o dos padres de evoluo social. A 
estrutura dominante dos machos mamferos deve ter deixado seu peso arquetpico na evoluo da espcie 
humana. Por outro lado, a organizao social dos ltimos milnios sempre definiu o masculino como elemento 
dominante. Isto significa que, nas relaes estabelecidas, a postura masculina  uma postura muscular ativa, 
enquanto que a feminina  a de passividade ou de espera. A postura masculina  intrusiva, ou seja, de 
conquista pela fora, pelo choque, pela ruptura. Os brinquedos tpicos masculinos, como os heris, as armas e 
as competies fsicas, exemplificam bem o processo. 
A postura feminina  a de armar o lao, ou seja, o comportamento passivo  muscularmente passivo, porque h 
uma elaborao das relaes de forma a interferir nos resultados. Os pesquisadores da evoluo intelectual 
tm concordado que o desenvolvimento verbal e social da menina, at a puberdade,  superior ao do menino. 
Isto demonstra bem que passividade no  inrcia, mas uma modalidade de relao. O termo passivo indica 
uma postura de conquista que se ope  atuao e ao domnio muscular.  tambm caracterstico que, no 
segundo ano de vida, as meninas e meninos gritem e batam quando provocados. Mais tarde, o menino reagir 
mais pela agresso fsica e a menina pela agresso verbal. 
Vemos descrito com freqncia que as modalidades ativo-passivo so o ncleo do futuro sadomasoquismo. 
Isto  verdade, mas a compreenso do fenmeno afigura-se em geral distorcida. Franoise Dolto parece ser 
quem melhor define o processo, ao explicar que o sentido original do sadismo  ter o prazer de utilizar o corpo 
ativamente, para ter prazer na relao com o outro. O masoquismo  ter prazer em entregar seu corpo para uma 
relao agradvel com o outro. As perverses sadomasoquistas, cujas descries romanescas tanto assustam 
(e deliciam), so distors patolgicas de uma modalidade que  evolutivamente adequada. Qurndo os 
impulsos destrutivos ou de dio predominam sobre os construtivos ou de amor, esta destrutividade passa a 
integrar a relao, distorcendo-a. Veremos melhor estes problemas no estudo da psicopatologia da fase anal. 
Dentro das idias de Freud e de Abraham, a fase anal se subdivide em duas etapas evolutivas. A primeira  a 
fase anal expulsiva, e a segunda, a fase anal de controle. As caractersticas da aquisio do controle de 
esfncteres, com as correlatas fantasias dos primeiros produtos, esclarecem os suportes de base para a 
diferenciao psquica das etapas. As defesas projetivas, cj seja, paranides, sero derivadas das modalidades 
expulsivas. As defesas por controle, ou seja, obsessivas, sero derivadas da reteno.  sempre fundamental 
ser reafirmado que estas modalidades so adaptativas e necessrias para o desenvdlvimento. A modalidade 
expulsiva  o suporte da colocao dos primeiros produtos no mundo. Aprender a pr os prprios produtos 
internos fora, de forma adequada, percebendo a receptividade, organizando as trocas com os pais, tudo faz 
parte de um processo aquisitivo. Estabelecemos as bases afetivas que nos daro a energia para pr no mundo 
o nosso trabalho, as nossas criaes, para que sintamos que o mundo se constri  medida que nos 
construmos. O controle  tambm um elemento fundamental de adaptao ao mundo. A ordem, a elaborao, a 
perseverana e o delineamento de metas caracterizam um Ego sadio. 
Vistos os aspectos evolutivos, vamos esclarecer a distoro de cada momento. Na primeira etapa, referimo-nos 
 formao de mecanismos projetivos. O que os caracteriza? J os estudamos na anlise da fase oral. Os 
mecanismos biolgicos fundamentais so as trocas estabelecidas com o meio. Incorpora-se o que  bom e 
dejeta-se o que  mal. Ao nvel da fantasia, Melanie Klein antecipa a descrio destes processos para um 
primeiro momento da fase oral, que ela define como sendo a posio esquizo-paranjde. Neste momento, a 
fantasia  vivenciada como realidade. Mas agora, na fase anal, estamos vendo como os primeiros produtos 
concretizam a fantasia de que algo interno, posto no mundo, pode premi-lo ou destru-lo. A criana que 
defeca em momento inadequado e percebe as reaes de nojo, de reprovao, de rejeio, s pode entender 
que  m e seus produtos so destrutivos. A expresso popular para criticar a criana, definindo seu ato como 
feio (lembrem-se da confuso entre a tica e a esttica no psiquismo infantil), refora na criana o sentimento 
de inadequao. Isto no quer dizer que uma palavra de censura colocar a criana num processo patolgico. 
Estamos utilizando o exemplo para demonstrar um sentimento de rejeio sentido pela criana. Uma me 
obsessiva, para quem qualquer contato com sujeira desmobiliza suas defesas e a coloca em pnico, 
transmitir esta rejeio  criana. As tentativas precoces e violentas de controle de esfncteres atacaro um 
elemento que, em fantasia, 
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est sendo doado como um presente. Freud sempre enfatizou a equivalncia simblica fezes = prenda. Por isso, os 
processos geradores de angstia  notadamente a rejeio parental  no podem ser resolvidos com meros conselhos dados 
aos pais para que elogiem os filhos. Corre-se o risco  ao nos determos neste nvel  de estarmos fortalecendo mensagens de 
duplo vnculo, ou seja, a me estar verbalmente sendo adequada, mas expressando sua rejeio nos gestos, na expresso 
facial e no contexto de sua atuao. As mensagens de duplo vnculo so duas vezes desestruturadoras. Em primeiro lugar, 
mantm a comunicao da rejeio; em segundo, no permitem  criana se situar pela ambivalncia da mensagem. E 
freqente que as crianas-problema sejam filhas de pais-problema. As caractersticas destes pais podem variar muito, mas 
parece que em geral dois fatores permanecem comuns: a rejeio e as mensagens de duplo vnculo. 
A distoro afetiva neste momento implica o sentimento de que se est prenhe de maldade. O que  colocado no mundo  
mau e destrutivo. Tal qual os dejetos orgnicos que no podem permanecer no organismo e so eliminados, contaminando o 
meio, os sentimentos internos de destrutividade no so suportados, sendo projetados para os objetos exteriores (objeto no 
sentido psicanaltico). Exemplifiquemos o mecanismo, inicialmente em um nvel menos exacerbado. A me e o pai 
desorganizados, incapazes de definir uma estrutura de mundo coerente, incapazes de definir para si um esforo presente 
voltado para o futuro, jamais podero esperar um adequado rendimento escolar do filho. O padro de conduta domstico, 
reproduzido na escola, no estar de acordo com as exigncias do desenvolvimento acadmico. Mas  doloroso aos pais 
reconhecerem sua fragilidade. O sentimento de inadequao , ento, projetado, buscando-se, assim, bodes expiatrios que 
justifiquem os fracassos dos filhos. A professora  incompetente, a escola  desorganizada, os colegas so prejudiciais. E, 
inclusive, curioso como os pais desse tipo mantm por anos os filhos em escolas das quais apenas se queixam. E preciso 
que sejam mantidas, que continuem como depositrias das projees parentais, para que a verdadeira angstia no seja 
percebida. Os pais se eximem da culpa, colocando-a em objetos externos. Enviar os filhos para urna escola extremamente 
recomendada deix-los-ia sem defesas. Tero que enfrentar a prria culpa. Todos ns tambm nos servimos eventualmente 
de mecanismos projetivos para afastar um sentimento de inadequao: estamos desempregados por causa da crise 
econmica, no podemos comprar um carro novo porque os preos subiram, no fomos promovidos porque houve 
proteo poltica ou puxa-saquismo. Mas, por trs destas expresses, est a nossa incapacidade de acompanhar e vencer 
o momento de vida. 
Os mecanismos projetivos podem estar presentes em momentos da vida de qualquer pessoa comum: O que 
define a patologia  a predominncia destes mecanismos, fazendo com que qualquer relao seja estabelecida 
atravs deles. 
Quando a angstia que evitamos  muito forte ou muito primitiva, toda energia do Ego  mobilizada em 
defesas. As funes do Ego ligadas ao processo secundrio, ou seja,  organizao da realidade, ficam 
enfraquecidas, e os processos inconscientes passam a se sobrepor. Temos, ento, o estabelecimento de um 
surto psictico. Quando neste surto predominam os mecanismos projetivos, temos a configurao de um 
quadro de parania. O paranico que a cada momento sente que ser morto por algum, na verdade projeta 
seus instintos homicidas ou destrutivos sobre o mundo, passando a v-lo como colorido pela agresso. O 
cime delirante do marido ou da mulher, que v em cada atitude do outro uma manipulao para engan-lo e 
procurar o amante, em geral encobre os prprios desejos de infidelidade, ou de atrao homossexual. Sobre 
este ltimo aspecto,  curioso notar que a pessoa eleita como o amante do cnjuge , em geral, aquela por 
quem antes nutria grande admirao. A frase Justo com o meu melhor amigo!  sintomtica. 
A distoro do segundo momento anal fica permeada pelo controle. A cobrana que no pode ser entendida, 
seja por motivos externos ou pela organizao de fantasia do momento, desperta angstias e desejos que no 
podem ser vivenciados. As tentativas de controle ou de posse predominam sobre as de amor ou elaborao. O 
obsessivo no ama, apenas domina. No cria, apenas manipula. Ao nvel externo e superficial  percebido 
como algum normal e exigente. Mas em ritualizaes compulsivas, freqentemente feitas com disfarce, o 
obsessivo atualiza em fantasia a destrutividade que no pode sentir. Lava as mos dezenas ou centenas de 
vezes por dia, mas, ao mant-las limpas, est atualizando a analidade que no pode vivenciar. Funciona 
normalmente por formao reativa, ou seja, atuando exatamente de forma contrria aos seus impulsos 
instintivos. A formao reativa transformar, ento, os impulsos destrutivos da fase sdico-anal, ou anal de 
controle, numa socializao aparente e falsa. Como no pode viver os sentimentos, o obsessivo se utiliza de 
mecanismos de controle. O mais importante  a formao reativa, mas outros so utilizados com o mesmo fim. 
Na racionalizao, ele constri uma teoria falsa para ocultar a angstia trazida pela verdadeira. Pode discursar 
horas sobre a importncia da pontualidade para o desenvolvimento da empresa, mas que, com todo o controle 
que ele saber impor, poder acabar falindo. No ser capaz de ver o processo, pois no pode trabalhar com a 
elaborao e aceitao dos produtos. Outro mecanismo, s vezes confundido com 
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a racionalizao,  o da intelectualizao. Neste, o sujeito realmente elabora a verdade, mas utiliza a elaborao intelectual 
para propiciar um distanciamento afetivo. Far uma retrospectiva fria de todos os motivos que o levaram  ruptura do 
casamento, vendo o desfecho como conseqncia natural, e, com a valorizao das relaes intelectuais entendidas, nega-se 
a vivenciar o sentitilento de perda. Funcionar tambm pelo mecanismo do isolamento, ou seja, criar intervalos temporais 
entre os eventos e os sentimentos a ele ligados, pois isto impedir que os sentimentos fujam do controle. No se alegrar 
com uma conquista e no sofrer com a perda.  lgico que um afeto no pode ser eliminado. O afeto surgir depois, 
simbolizado em idias compulsivas que no poder tirar do pensamento, ou em rituais onde as simbolizar de forma direta 
ou invertida. 
Tentamos apenas definir a patologia decorrente do perodo. Os exemplos so apenas ilustrativos, com a finalidade de situar 
introdutoriamente algumas modalidades sintomticas decorrentes da fase anal. O estudo da organizao patolgica em 
psicanlise  difcil, e qualquer aprofundamento em cada quadro  tarefa de estudo mais amplo. Esperamos apenas que os 
elementos simples que foram dados possam possibilitar uma reflexo inicial. 
1.1.5 Leituras recomendadas 
1. Abraham, K. Teoria psicanaltica da libido. So Paulo, Imago Ed., 1970. 
2. Dofto, F. Psicanlise e pediatria. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1972. 
3. Erikson, E.H. Infncia e sociedade. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1971. 
4. Freud, S. Trs ensaios para uma teoria sexual. 1905*. 
5. Freud, S. O carter e o erotismo anal. 1908. 
6. Freud, S. Anlise de um caso de nelrose obsessiva (O homem dos ratos). 
1909. 
7. Freud, S. Observaes psicanalticas sobre um caso de parania (Caso Schreber). 1910. 
8. Freud, S. Predisposio para a neurose obsessiva. 1913. 
9. Freud, S. Sobre alguns mecanismos neurticos nos cimes, parania e homossexualismo. 1921. 
1.2 A fase flica 
2.2.1 A descoberta da sexualidade 
O desenvolvimento do amor pleno, da capacidade de estabelecer relaes maduras, duradouras e produtivas, ou seja, o 
desenvolvi Com nos volumes anteriores, as obras de S. Freud esto indicadas apenas pelo ano da edio inicial. Com esta 
referncia poder ser consultada qualquer edio de suas obras completas. 
mento daquele tipo de relao que em psicanlise chamamos de amor de objeto, segue um longo percurso, 
atravs das dimenses parciais da sexualidade oral e anal, at obter seu primeiro estgio de integrao com as 
vivncias da fase flica e a organizao do complexo de dipo. O encontro com o seio estabeleceu as primeiras 
ligaes significativas com o mundo exterior. Essa ligao, prenhe da dcotomia amor-dio, marcava pela ciso 
um primeiro momento evolutivo de organizao do mundo. A manifestao do instinto de vida e os 
sentimentos de prazer organizaram a imagem de uma me boa, amada e desejada. Uma maternagem adequada, 
notadamente por meio da amamentao, preservou e desenvolveu esses vnculos. O dio e as sensaes 
dolorosas instituram a imagem de uma me m, destruidora e passvel de destruio. Esse primeiro padro de 
relacionamento, parcial e cindido, a que Melanie Klein denomina posio esquizo-paranide,  um primeiro 
momento evolutivo sobre o caos de sentimentos e fantasias iniciais. Um mundo que era confusional pode 
agora ser organizado em aspectos bons e maus. S por volta do terceiro ou quarto ms de vida a me se 
organizar como um objeto inteiro, portadora das caractersticas boas e ms antes dicotomizadas. A me 
presente no prazer da amamentao  a mesma ausente na fome. Os ataques fantasiados dirigidos  me nos 
momentos de dio ou de dor geram um sentimento de culpa e a tentativa de reparar ou preservar a me boa, 
fonte de amor e prazer, agora integradas numa nica figura. A posio depressiva que Melanie Klein define 
nessa etapa do desenvolvimento oral ser um marco no relacionamento amoroso com o objeto inteiro. A me 
inteira, o pai e os outros objetos entraro sucessivamente nas relaes infantis, substituindo as relaes 
iniciais permeadas pelo vnculo boca-seio. Essas relaes, j em fase oral, integrando me e pai no 
relacionamento com a criana, definem, para Melanie Klein e Arminda Aberastury, um relacionamento inicial 
triangular, denominado complexo de dipo precoce. O complexo de dipo clssico, que estudaremos a seguir, 
ser desenvolvido na fase flica. 
A dimenso masculino-feminino  ainda indefinida na fase oral. O objeto central do vnculo de amor  a me, 
tanto para o menino quanto para a menina. Erik Erikson define bem o sentimento de bem-estar dessa etapa, 
chamando-o de confiana bsica. Poder sentir que o mundo  bom, que se  amado, protegido, cuidado, so 
relaes basicamente estabelecidas com a me, mediante uma maternagem qualitativamente adequada. Alis, 
julgo adequado considerar a fase oral como o perodo da me. 
A fase anal trar para a criana o domnio muscular e a entrada no mundo. O sentimento de autonomia, que Erik 
Erikson define como a tarefa psicossocial desse perodo,  bem demonstrativo das 
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13 
aquisies que se realizam: o andar, o falar, o controle de esfncteres, o domnio muscular, a entrada nas relaes com outras 
pessoas. Permeado pelas modalidades expulso-reteno, Freud definir nesse perodo os primeiros posicionamentos 
ativo-passivo, que constituiro as razes do futuro modelo masculino-feminino. Embora predominem os modelos ativo para 
o homem e passivo para a mulher, ambos coexistem nas meninas e nos meninos. Julgo pessoal- mente que, embora esses 
modelos sejam precursores da definio sexual, a fase anal caracteriza, tanto para o menino quanto para a menina, uma 
ligao afetiva primordialmente dirigida para o pai. Se as relaes de confiana do perodo oral atualizam a imagem da me, 
as relaes de autonomia do perodo anal  portanto, os rudimentos das relaes de conquista  atualizam a figura do pai. 
No me parece que haja apenas o pai, mas sim primordialmente o pai. Embora predomine o pai, tambm as relaes se 
definem com a figura da me. Mas so relaes excludentes, ou seja, comportam um vnculo ou cono pai ou com a me. A 
integrao num tringulo pleno de relacionamento pai-me-filho  tarefa da fase flica. 
A sexualidade infantil dessas etapas pr-genitais definem vnculos com a me, vnculos com o pai, importantes modelos 
evolutivos de relao com o mundo, mas no caracterizam ainda uma atrao genital configuradora dos vnculos masculino-
feminino. Agora, com a estabilizao dessas etapas anteriores e com a evoluo maturacional, a libido, que j teve sua 
configurao oral e anal, passar a erotizar os genitais, marcando o ingresso numa relao onde a atrao homem-mulher 
iniciar seu desenvolvimento. 
A erotizao dos genitais dirigir o interesse infantil para a percepo das diferenas anatmicas. Num primeiro momento, 
a fantasia infantil nega a ausncia do pnis na mulher. O menino concentra sua ateno em seu pnis, e a menina valoriza o 
clitris como sendo um pequeno pnis, semelhante ao masculino e que se desenvolver. Dentro do modelo freudiano, o 
conhecimento da vagina inexiste neste momento. S na adolescncia ser ela adequadamente integrada  imagem corporal. 
Nestes termos, a erotizao que surgir  uma erotizao flica, e a fantasia de que ambos so portadores de pnis 
enfrentar o teste da realidade. A maturao intelectual e o desenvolvimento da percepo definiro que s o homem o 
possui. Como a estrutura afetiva est preparada apenas para a posse do pnis e no para a da vagina, ficam definidos um 
dilema e um erro de interpretao anatmica: ou se tem pipi, ou no se tem; ou se  flico, ou castrado. Os homens so 
flicos, e as mulheres, castradas. A primeira definio do masculino e do feminino fica definida em cima do erro perceptual. 
A decorrente deno mina 
freudiana de fase flic  natural. A modalidade sexual dessa etapa dicotomiza-se na polaridade flico-castrado. A 
exualidade  masculina, e o feminino  definido pela ausncia. 
1.2.2 A valorizao flica em Freud 
A sexualidade masculina como fator dominante parece ter para Freud caractersticas filogenticas, ou seja, fantasias de 
poder e de domnio masculinos, oriundas das estruturas dos grupos totmicos que encontram sua concretizao na posse 
biolgica do pnis. O pai totmico, dono das mulheres e controlador dos homens, define-se como sujeito numa relao onde 
os outros so objetos. O poder, a conquista, a fora, o direito de escolha do parceiro sexual so caractersticas masculinas 
nos grupos primitivos. Em parte, seus resqucios so encontrados nas sociedades atuais. No plano da fantasia, eles ainda 
organizam, para Freud, a constituio das estruturas afetivas masculinas. Essas idias foram sintetizadas num artigo que 
Freud escreveu em 1923, A organizao genital infantil, com o subttulo de Adio  teoria sexual, onde ele expe 
textualmente: 
No estdio da organizao pr-genital sdico-anal ainda no se pode falar de masculino e feminino; predomina a anttese 
de ativo e passivo. No estdio seguinte da organizao genital infantil, j h um masculino, mas no um feminino; a anttese 
aqui  genital masculino ou castrado. S ao final da evoluo, na puberdade, a polaridade sexual coincide com o masculino e 
o feminino. O masculino compreende o sujeito, a atividade e a posse do pnis. O feminino integra o objeto e a 
passividade. 
Aqui j podemos encontrar as dimenses terrorficas que a castrao assumir. No ser apenas a perda do rgo ou da 
prpria masculinidade. Ser a perda da fora, do poder, da onipotncia e, simbolicamente, da prpria vida. Esse sentido 
simblico aparece de maneira muito bonita na anlise do pequeno Hanz, descrita por Freud em 1909. Essa anlise, a 
primeira anlise de crianas feita pela psicanlise, no foi realizada pessoalmente por Freud. O pai de Hanz, mdico, 
analisando e discpulo de Freud,  que a efetua sob sua prpria orientao. As fantasias trazidas por Hanz so to 
caractersticas que Freud utiliza a descrio do caso como confirmadora de suas teorias sexuais infantis. Durante o 
acompanhamento Cvolutivo do caso, verifica-se que em certo momento Hanz concentra sua ateno no faz pipi. Todas 
as pessoas, homens ou mulheres, so por ele percebidas como tendo um faz pipi. Em seguida, Hanz percebe que os 
animais tambm possuem um faz pipi, e a partir desse momento a posse do pnis  o que lhe far diferenciar os seres 
vivos dos inanimados. Podemos concluir que a partir desse 
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15 
momento a associao entre a perda do pnis e a morte  um passo curto. 
Essas fantasias masculinas so confirmadas, em alguns nveis, pelos continuadores da psicanlise. J a 
organizao genital feminina, descrita por Freud, encontrar mais opositores do que seguidores. Discutiremos 
esses aspectos na parte final deste captulo. 
1.2.3 A atrao masculino-feminino 
A diferenciao masculino-feminino  uma caracterstica evolutiva da prpria vida. Nos vrios nveis 
filogenticos da evoluo, a luta darwiniana pela sobrevivncia e a adaptao aos nichos ecolgicos se 
encarregaram de estabelecer modelos de encontro do macho e da fmea, modelos esses em que a atrao 
sexual s vezes  mais forte do que o prprio instinto de sobrevivncia individual. Veja-se o modelo geral de 
reproduo das aranhas, onde o macho  sistematicamente eliminado e devorado pela fmea aps a cpula. A 
atrao masculino-feminino  uma relao biologicamente determinad . Tomemos outro exemplo, numa escala 
evolutiva superior. Criam-S dois coelhos recm-nascidos, um macho e uma fmea, em ambiente 
completamente isolado de qualquer contato com outros membros da espcie, incluindo um isolamento entre 
eles. Quando sexualmente adultos, efetuamos a aproximao dos dois e imediatamente ambos procuraro um 
relacionamento sexual e procriaro.  muito evidente a existncia de um comportamento biolgico-instintivo 
filogeneticamente determinado. Mas essa determinao ser estritamente biolgica em todos os nveis de 
organizao da vida? Ou poderemos objetar que o homem, com a transcendncia ao biolgico que a cultura 
traz, estaria fora desses modelos e que todos os complicados rituais de acasalamento que tanto deliciam os 
etlogos no seriam demonstradores ou indicadores da existncia de elementos filogenticos na conduta 
sexual humana? 
Vamos tomar como outro exemplo um parente mais prximo do homem. Criam-se dois chimpanzs, um macho e 
uma fmea, dentro do mesmo modelo de isolamento. Quando sexualmente adultos, colocamo-los juntos. O 
comportamento deles ser curioso. No sero capazes de se acasalar, como o fazem os coelhos. Mas tambm 
no ficaro indiferentes. Ambos ficaro excitados, e haver motivao para um jogo fsico. Fica presente uma 
idia de que um jogo corporal deve ser realizado, mas no sabem o que fazer. Haver carcias e agresses. O 
macho cavalgar a fmea e se deixar cavalgar por ela. Mas o coito no ser realizado. Este  dependente dos 
modelos de socializao pelos quais o chimpanz ter de passar.  necessrio que seja criado entre os 
semelhantes, com cuidados ma ternos 
para que tenha uma sexualidade normal. Vejam-se os vrios estudos de Harlow sobre o amor em filhotes de macacos 
rhesus. 
Podemos considerar o homem como uma etapa seguinte no processo de organizao da sexualidade. A sexualicade no lhe 
brota espontaneamente na ecloso da puberdade, no  uma estrutura definida biologicamente, como no caso dos coelhos, e 
 ainda mais sofisticada e dependente dos processos de socializao do que nos macacos superiores. No homem, a 
sexualidade ter de atravessar uma fase de realizao simblica que no s organizar a afetividade individual como tambm 
fixar os padres mnimos de inter-relao e sobrevivncia do grupo humano, dados pela lei bsica do tabu do incesto. 
O menino est em desenvolvimento. No primeiro ano de vida a organizao foi oral. No segundo e terceiro foi anal. Agora, 
por volta do quarto ano de vida, a libido tem uma organizao genital. O vnculo instintivo do prazer est, portanto, 
sediado nos genitais, e  manifestao do instinto corresponde um objeto que o satisfaa. Isso significa que a erotizao 
masculina desencadear o processo de busca de uma mulher. Pela prpria faixa etria na qual o processo se realiza, 
podemos ter clara sua dimenso simblica. A primeira organizao genital  processada em um momento no qual o homem 
 biologicamente no-reprodutivo. 
Isso no significa que o modelo genital adulto esteja presente no pensamento infantil. Podemos compar-lo ao que ocorre 
queles impulsos do chimpanz criado isolado. Digamos que h protofantasias inatas que em certo momento evolutivo 
sero desencadeadas, mas que para serem estabilizadas e organizadas necessitam de objeto e contextos adequados. E, na 
correspondncia, a imagem feminina prxima, a imagem da me, torna-se a depositria do desejo. 
1.2.4 A atrao do menino pela me 
A ligao inicial de toda criana, masculina ou feminina,  estabelecida com a me. O pai s tardiamente  inserido nas 
relaes. E a me continua sendo durante grande parte da infncia o objeto central das ligaes de conforto, prazer e 
proteo. Todas essas relaes tornam-se, para o garoto, elementos facilitadores da atrao flica agora desenvolvida. 
Pensemos o modelo: se a libido se organiza em torno dos genitais; se h busca de satisfao por meio de uma relao 
homem-mulher; se essa ligao  desejada e sentida como prazerosa; se a me foi o suporte afetivo inicial,  a mulher mais 
prxima e de quem o garoto mais gosta  a atrao que o menino sentir pela me, com caractersticas agora sexuais, ser 
conseqncia natural do processo. Essa atrao sexual que o filho 
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17 
sente pela me  muito forte. A fora de uma atrao pode ser avaliada pela represso necessria para bloque-la. To forte 
deve ter sido sempre a manifestao dessa atrao incestuosa, que contra ela se ergue o maior tabu da humanidade: a 
proibio do incesto. Freud o declara a lei mnima para a existncia da civilizao humana. 
Essa atrao desenvolvida  adaptativa. Permitir que os instintos sexuais organizem um objeto de desejo adequado, ou 
seja, fortalece a busca prazerosa de uma mulher, cria condies para o estabelecimento de um forte vnculo genital, 
posteriormente to necessrio para a sexualidade adulta, para a estabilidade de uma relao homem-mulher e para amar os 
frutos dessa ligao, ou seja, para que os filhos possam ser amados. 
As verbalizaes e os comportamentos infantis refletem o padro do vnculo amoroso que se estabelece. O menino brinca 
de pequeno homem ou pequeno heri. Diz que quer se casar com a me, s vezes quer ter filhos com ela. Ao nvel ldico, 
arvora-se em conquistador. Os super-heris o atraem como nunca. E guerreiro, utilizando-se de qualquer pedao de pau 
como espada ou metralhadora. No s ama mas, como heri, luta para conquistar o que quer. Erik Erikson o caracteriza 
como vivendo a crise psicossocial da iniciativa. O objeto de conquista est no plano da fantasia e no pode ser alcanado, 
mas a energia para busc-lo permanece. 
1.2.5 O tringulo edpico 
Estabelecido o vnculo sexual com a me, o pai emerge como figura repressora. Antes, na fase anal, os vnculos amorosos 
alternavam-se entre pai e me, sempre em relaes duais. Agora pai e me so percebidos juntos, numa relao onde a 
tentativa de conquista da me est interditada pelo pai. Figura ambivalente, o pai preserva ainda a imagem de amor e 
modelo, alternada com a de inimigo dentro de um combate onde apenas um poder sobreviver. E  exatamente a 
ambigidade dessa figura valorizada que pode preservar uma relao de amor, mas que, como representante da lei, como 
interditor do incesto, deve ser combatida no plano da fantasia (embora os sintomas do combate possam ser percebidos nas 
relaes de realidade);  exatamente essa ambigidade que permitir ao menino organizar os modelos bsicos de suas 
relaes com o amor e a lei  portanto, com o desejo e a organizao social. Uma figura masculina frgil, desvalorizada pela 
me, jamais ser um modelo a ser seguido ou um competidor a ser levado em conta. A me frgida, castradora ou assustada 
diante da masculinidade jamais poder apresentar ao filho a figura de um pai. 
O combate  realizado em dois planos paralelos e complementares. Em primeiro lugar, no plano da realidade 
objetiva e perceptvel  criana, a me  parceira sexual do pai. Os carinhos trocados com o pai so diferentes 
dos carinhos trocados com a criana. E com o pai que a me se fecha no quarto, enquanto a mente infantil fica 
fantasiando sobre o que acontece. A criana pode no conhecer explicitamente o relacionamento sexual, mas 
fantasia que alguma coisa boa com a me, que lhe  interditada, est sendo realizada pelo pai. Numa anlise do 
pequeno Hanz, j citada, tal colocao aparece de forma muito clara na verbalizao do garoto. Ainda no plano 
da realidade, o pai  vivenciado como todo-poderoso. E quem trabalha e prov o sustento da casa, d  criana 
recompensas e castigos. Protege-a, decide seus caminhos, impe-lhe normas de vida. Biologicamente, a 
criana  dependente da figura paterna. E impotente contra seu tamanho e sua fora fsica. Mas, se estas 
caractersticas impem um sentimento de impotncia, trazem simultaneamente um sentimento de proteo, de 
amor, um desejo de ser como ele. Um pai psicologicamente sadio saber preservar-se como representante da lei 
no plano da realidade, permitindo ao filho que no plano ldico estabelea seus combates. Poder jogar e lutar 
com o filho, ganhando ou simulando perder. No impor retaliaes. Manter preservado e claro o amor que 
sente pelo filho, com a organizao da lei como elemento do amor paternal. 
No plano da fantasia, emerge a figura do pai totmico, senhor absoluto do grupo e interditor da posse das 
mulheres. O modelo pode ser transcendido ainda por fantasias mais arcaicas. Dentro dos mamferos sociais, a 
regra geral  que um macho dominante tenha a posse do grupo e exclua os filhotes to logo estes atinjam a 
maturidade sexual. O elefante permite o crescimento de todos os filhotes, indistintamente. Com a maturao 
sexual, as fmeas so mantidas, e os machos, atacados, expulsos ou mortos. E-lhes negada a posse das fmeas 
e a permanncia na manada. O mesmo ocorre com o gado. Os smios superiores permitem a presena de alguns 
machos, mas submetidos ao dominante, ou seja, aps os combates fica claramente definida a hierarquia  qual 
os machos devem submeter-se. O filhote expulso s poder voltar ao grupo como desafiante, para combater o 
pai. S ter a posse das fmeas se o destruir. 
A luta pelo poder e pela posse da mulher faz parte de um mito humano arcaico. No Olimpo grego, Cronos 
devora todos os filhos que nascem para que estes no lhe ameacem o poder. Zeus consegue salvar-se, e s 
aps destruir o pai pde reaver seus irmos para Constiturem-se todos em divindades. O conflito entre filho e 
pai na luta pela posse da me e pelo poder tem sido o tema de grandes tragdias clssicas, como dipo Rei e 
Hamlet. Freud serve-se da 
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tragdia de Sfocles para chamar de complexo de dipo o conflito triangular estabelecido. 
dipo  filho do rei de Tebas. Ao nascer, o orculo revela aos pais a terrvel profecia de que ele h de matar o pai e casar-se 
com a me. Temerosos, seus pais, Laio e Jocasta, o entregam a um pastor para que o mate. Casualmente, outro pastor, de 
terras distantes, apieda-se da criana e convence o primeiro a entregar-lha e declarar ao rei que a tarefa fora cumprida. dipo 
 ento levado para Corinto, onde os reis Polbio e Mrope, estreis no casamento, o adotam. Adulto, dipo consulta o 
orculo e, ao saber da profecia, foge de Corinto para evitar a tragdia. Desconhecedor da condio de adotivo, portanto de 
sua origem, volta para Tebas. No caminho, por um desentendimento ocorrido na estrada, mata Laio, sem saber que matava 
o prprio pai. Decifra o enigma da Esfinge que assolava Tebas e a destri. Como recompensa, recebe a mo da rainha viva; 
desposa-a, tem filhos, e a profecia se cumpre. O palco da tragdia comea aqui. A pea  iniciada quando dipo tenta 
descobrir por que os deuses, irados, assolam Tebas com pragas. O andamento do drama  o processo de descoberta da 
verdade de dipo. Vrias relaes descritas por Sfocles so elementos constitutivos da estrutura humana que sero 
retomados por Freud na teorizao da psicanlise. dipo  um decifrador de enigmas, mas no pode, sozinho, decifrar o 
enigma de sua prpria vida. Um cego, literalmente o que no v a realidade externa formal,  quem primeiro chega  
descoberta da verdade. Percebe mesmo que Edipo j possui elementos para descobri-la, mas no quer, ou melhor, no pode 
faz-lo. O processo  anlogo ao descrito por Freud, quando o cliente, ao descobrir suas verdades, percebe que sempre as 
conheceu, mas por algum motivo no as podia perceber. Ao ser informado pelo cego de que matara o pai, dipo no o 
admite. Isso se assemelha a uma interpretao precoce em psicanlise, onde o analisando ainda no se pode defrontar 
com a verdade. Quando finalmente a verdade  descoberta, um superego rgido os obriga  auto-retaliao. Jocasta suicida-
se, e dipo fura os prprios olhos. Muitos dos processos descritos so similares aos da formao de sintomas e da evoluo 
de uma psicoterapia. Tivesse Sfocles substitudo a profecia dos deuses pelos desejos inconscientes, teria lanado os 
rudimentos da estrutura analtica. 
Ernest Jones escreve um trabalho, Hamlet e o complexo de dipo, onde demonstra que a tragdia de Shakespeare  uma 
tragdia edpica  portanto, uma variao da temtica de Sfocles. No drama, o prncipe sai da Dinamarca para estudar e, ao 
retomar, o pai fora assassinado e a me desposara o tio.  interessante notar que o tema do prncipe ou princesa que sai de 
casa para estudar e 
amadurecer sexualmente no s est presente nessas tragdias, mas  igualmente comum nos contos de fadas, 
embora nestes aparea sempre dentro de uma dimenso ldica ou, para utilizar uma terminologia de Winnicott, 
dentro de uma relao transicional. No retorno o fantasma do pai aparece a Hamlet, clamando por vingana.  
seu dever matar o tio, vingar o pai. Mas, se o mta, mata tambm uma parte de si. O tio  o representante 
simblico do desejo de Hamlet. Ao mat-lo, matar aquele que realizou o que desejaria fazer, O ser ou no ser 
emerge dentro de uma dimenso edpica. 
1.2.6 A soluo do dipo masculino e seus aspectos evolutivos 
1.2.6.1 O temor da castrao 
A etapa flica trouxe a valorizao do genital masculino. Quer por um modelo cultural, como o pretende K. 
Horney, quer por um modelo dependente de estruturas filogenticas, como centraliza Freud, o poder, a fora, a 
conquista, o sujeito, esto definidos na dimenso flica. A prpria sexualidade  definida nesta etapa como 
masculina. Pnis e clitris so equivalentes flicos no plano da fantasia. A posse do pnis emerge como 
organizadora das fantasias e atividades masculinas. E por ser flico que o garoto se valoriza, busca a fora, 
o poder, a conquista. E atravs da erotizao flica que a ligao amorosa com a me  estabelecida. Ser flico  
ao mesmo tempo um ponto constitutivo da organizao do eu masculino e o ponto de origem dos desejos 
sexuais. Mas se o pnis lhe traz o prazer do erotismo, do poder e da conquista, traz-lhe simultaneamente um 
grande temor, O maior ataque que poder sofrer  ser privado daquilo que mais valoriza. Ser castrado  ser 
destrudo em sua organizao e em seu desejo. Por isso, ameaas aparentemente to ingnuas para os adultos, 
do tipo vou cortar o seu pipi, soam to trgicas e coercitivas para as crianas. Se essas ameaas no 
surtissem efeito, teriam sido progressivamente eliminadas dos padres culturais.  em sua eficcia repressora 
que se baseia sua manuteno, s vezes com conseqncias trgicas para o psiquismo infantil. 
A ligao edpica encontra-se em evoluo, O garoto fantasia que se ir casar com a me, ter filhos com ela, 
arvora-se em heri para conquist-la e proteg-la. Inicia suas primeiras imitaes masculinas para ser seu 
cavalheiro. Promete-lhe uma casa, diz que ir trabalhar e ganhar dinheiro para ela. Explode em crises de cimes 
quando o pai e a me se enlaam em carinhos, O pai entra como o terceiro elemento para impedir a ligao que 
a fantasia est processando. Quer nos prendamos s arcaicas fantasias do pai totmico, que veda ao jovem a 
posse das mulheres, quer ao modelo filogen 20 
21 
tico de excluso dos machos, quer aos modelos ligados aos padres culturais, em todos eles o pai tem o 
domnio concreto da me e a posse do poder. A inferioridade fsica e social do filho  clara.  do pai que vem o 
alimento e a proteo.  a ele que deve a obedincia. O pai pode premi-lo ou impor-lhe castigos.  com o pai 
que a me se isola em seu quarto. 
Comea a se configurar para o menino o aparecimento de um rival perigoso que se ope  concretizao de seu 
desejo. A me pertence ao pai, e este, mais forte, barrar suas tentativas de aproximao. Evidentemente,  
fundamental para o desenvolvimento psquico que o Edipo se estabelea e que seus conflitos ocorram 
basicamente no plano da fantasia. Mas isso no reduz o temor emergente; ao contrrio, amplia-o. Se a realidade 
no permite uma oposio concreta ao pai, tambm no permite que sofra retaliao. Mas na fantasia a 
retaliao advir. Se o pomo da discrdia, o ponto central do conflito  o desejo pela me; se a erotizao 
genital  o motor da sexualidade dirigida  me; se a posse do pnis  ento o ponto de origem do desejo pela 
me e da luta contra o pai, ou seja, o centro do conflito edpico,  conseqncia natural que o temor de ser 
destrudo se organize sobre o temor da castrao.  o que h de mais precioso para ser atingido.  o ataque 
que impedir a consecuo de seus desejos. 
O temor da castrao surge ento violento, obrigando o menino a desenvolver meios de proteo contra a 
ameaa paterna. Freud dir que o temor de castrao  maior do que o da morte. No  apenas a perda do rgo 
flico, mas a perda de tudo o que ele simboliza: o poder, a atividade, a conquista, a emergncia do sujeito e as 
manifestaes do instinto de vida, falicamente centralizados nesse estdio. Contra esse temor crescente 
mobilizar-se-o trs mecanismos bsicos de defesa: a identificao, a represso e a sublimao. 
a) A identificao 
Um cliente de Hana Segal, em Introduo  obra de Melanie Klein, nos d um exemplo bastante elucidativo 
do processo. O garoto  levado  psicoterapia por vrios motivos, um dos quais  o estranho comportamento 
de,  noite, sair da sala de jantar e atravessar o corredor gritando, com os braos levantados. Quando chega ao 
seu quarto, fica novamente tranqilo. Durante a anlise, Hana Segal verifica que, nas fantasias da criana, o 
corredor estava povoado de fantasmas. Sair da sala de jantar e atravessar o corredor era infiltrar-se por entre 
uma multido de eventuais perseguidores. A criana agia ento por um mecanismo de defesa a que 
denominamos 
22 
identificao com o agressor. Tomava-se um dos fantasmas. Era mais um deles a povoar o corredor. Sendo 
igual a eles, no teria o que temer, O mesmo modelo pode ser encontrado nas situaes usuais de trabalho 
empresarial, O chefe de uma diviso entra em uma seo criticando furiosamente o trabalho realizado. Ameaa 
a todos com punies ou demisso. To logo saia da sala, o encarregado do setor, antes pacfico e gentil, 
levanta-se furiosamente e continua o sermo. Ter ele mudado em prazo to curto? Ter percebido agora as 
falhas que h muito ocorrem? O mais provvel  que, temeroso da retaliao, tenha assumido, em fantasia, a 
identidade do agressor. Sua exploso nada mais  do que um mecanismo psicolgico de defesa pelo qual, ao 
assumir as atitudes do agressor, identifica-se com ele, ficando portanto livre de seus ataques. 
Dentro do tringulo edpico, o garoto tambm se encontra atemorizado diante de um adversrio poderoso. Para 
se proteger do temor, um dos mecanismos que utilizar ser identificar_se com a figura que o ameaa. Sendo 
igual a ela, no precisar tem-la. Essa identificao  facilitada para a criana porque vrios dos modelos 
masculinos do pai j comeam a ser vividos por ele, tanto pelos processos introjetivos j existentes quanto 
pelos valores que esteve assumindo para a conquista da me. Mas, se anteriormente esses valores eram 
superficialmente copiados, agora sero profundamente introjetados, No imitar os valores e atitudes do pai, 
sentir-se- como tendo esses valores e atitudes. 
O desenvolvimento desse processo de identificao  fundamental para a aquisio da identidade masculina. 
J vimos que a modalidade sexual da fase anterior era uma relao ativo/passivo. Na fase flica, a relao 
estruturada  a de flico ou castrado. Ainda no h a verdadeira dimenso masculino_feminino A formao da 
verdadeira identidade masculina ser produto da adolescncia. Mas essa identidade masculina futura ser 
calcada pelos valores decorrentes do atual processo de identificao, Temos ento que h uma identificao 
com o masculino, como decorrncia da organizao edpica, e uma identidade masculina, como produto da 
evoluo da fase genital. 
A figura presente do pai  elemento essencial para a identificao. O temor da castrao no  uma catstrofe 
gratuita que ocorre na vida infantil, mas um elemento adaptativo que toma a criana dentro da bipolaridade 
flico-castrado (ativo-passivo), uma bipolaridade que ainda  bissexual, remetendo-a para a definio de uma 
masculinidade definida e heterossexual Se h o temor, h toda a beleza da busca do feminino presente no 
Edipo, h o vigor da busca da masculinidade e da competio. Penso que esse jogo 
23 
de competio e imitao tambm traz prazer, e  uma dimenso bela e ertica da definio da sexualidade. 
b) A represso 
A identificao no basta para resolver o conflito e afastar o temor da castrao. Mesmo identificando-se com 
o pai, se o desejo pela me  mantido, o conflito continua em aberto. A identificao, soluo adequada e 
necessria para o desenvolvimento, s resolve um primeiro momento da angstia. Torna-se imprescindvel 
renunciar ao elemento motor do conflito, a atrao pela me. Essa atrao, embora s recentemente 
configurada ao nvel sexual,  o produto das vrias etapas de evoluo da libido. Reprimir o amor pela me  
reprimir a sexualidade. Tal  o sacrifcio que se exige para a continuao do desenvolvimento. 
Mas, se a energia da libido brota constantemente, qual ser seu destino uma vez efetuada a represso? Vimos 
que, quando Freud divide inicialmente os instintos em instintos do Ego e instintos sexuais, os primeiros, 
ligados  sobrevivncia, carecem de satisfao imediata. No se pode postergar a fome ou a sede seno dentro 
de certos limites, sob o risco de morte do organismo. Tambm os instintos do Ego no seriam plsticos, ou 
seja, no se pode fugir da fome ou aplac-la satisfatoriamente com gua, ou ainda satisfaz-la em um plano 
mgico. Ela requer satisfao relativamente imediata, concreta e objetiva. Mas os instintos sexuais, 
organizados sob a dimenso do prazer em si, podem ser plsticos e, portanto, satisfeitos de forma substitutiva. 
A energia presente na atrao sexual pela me fica, com a represso, impossibilitada de se realizar ou 
descarregar. A teoria psicanaltica em Freud  homeosttica e hedonista. A energia corresponde a um acmulo 
de tenso, e o prazer  sua descarga. O objeto de satisfao, ou seja, o objeto que proporciona uma descarga 
adequada, est vedado. A energia no pode ser puramente eliminada. Ela deve buscar outros caminhos para a 
obteno de prazer. A plasticidade dos instintos e os mecanismos de funcionamento do inconsciente 
encarregar-se-o de organizar novas relaes para a obteno de prazer. O amor sexual pela me  sublimado 
em outras atividades. 
c) A sublimao 
A sublimao  o mecanismo de defesa atravs do qual a energia originariamente sexual  transformada em 
atividades sociais, 
culturais e intelectuais. A represso, atuando defensivamente contra o temor da castrao, bloqueia a sexualidade, proibindo 
sua manifestao direta. Represada, essa energia busca por onde escoar. E a sublimao  tanto maior quanto maiores as 
energias sexuais e a represso  dirigir a criana para a construo intelectual e social. A sua energia ser dirigida para a 
evoluo dentro do mundo do conhecimento e do jogo das relaes interpessoais. A fase flica comea a se encerrar, e o 
perodo de latncia que surge  o grande momento das aquisies na conquista do real. E caracterstico que, no modelo de 
Piaget, seja neste momento que a criana deixa o pensamento pr-operatrio para assumir o mundo da lgica. Em todas as 
culturas, este  o momento em que a criana entra para uma escolarizao formal ou para o aprendizado profissional. 
A evoluo maturacional traz consigo etapas de desenvolvimento afetivo e intelectual. Os dois processos so paralelos, 
mas interdependentes. A criana, ainda edipicamente presa  me sedutora e  figura paterna ausente ou inadequada, no 
ter a organizao e o desenvolvimento da etapa flica. Se as sublimaes no se efetuarem, a energia da criana continuar 
buscando descargas em um erotismo infantil, e o prazer de refletir sobre o mundo e domin-lo no ser adequadamente 
instalado. A escolaridade est fadada ao fracasso. Como buscar novas relaes sociais no grupo de companheiros, como 
partir para novas conquistas sociais, se os vnculos edpicos mantm a criana agrilhoada s atraes e temores do grupo 
familiar? 
1.2.7 A formao do superego 
Durante a etapa anal j havia organizao de valores, mas a estrutura era a de um Superego externo, ou seja, dominado 
pelos valores parentais e funcionando em uma relao talinica onde, ponto por ponto, a cada falta correspondia a 
perspectiva de uma punio. A relao era olho por olho e dente por dente. A tica e a esttica se confundiam, fazendo 
equivaler o mau ao feio e o bom ao bonito. Os valores eram introjetados sem qualquer flexibilidade ou elaborao pelo 
indivduo. Agora, com a represso da sexualidade, fica introjetada a regra fundamental da existncia do grupo humano: o 
tabu do incesto. Introjeta-se que o pai  da me, e a me  do pai. To rigorosa  a introjeo dessa norma, que com ela se 
introjetam as normas sociais. Saber quem  o pai, e o que  dele, e quem  a me, e o que  dela, permite internalizar a 
compreenso dos direitos e deveres, do que ser conquistado e do que  vedado. Para Freuci, o Superego  o herdeiro do 
complexo de Edipo. O Indivduo, antes dirigido por normas externas, pode agora orientar-se com base num referencial 
interno. 
24 
25 
1.2.9 A organizao da sexualidade feminina em Freud 
O Superego  estruturado em duas dimenses complementares. De um lado, o que chamamos de Ego Ideal, ou 
seja, a internalizao dos valores almejados. Aquilo que sentimos valorizado e justo deve ser conquistado.  
esa dimenso que nos mobiliza para a conquista social, para o progresso intelectual, para a busca de uma 
organizao social que sentimos justa. De outro lado, o Superego  constitudo pela Conscincia MoraI, ou 
seja, a internalizao do proibido, do tabu. O comportamento psicoptico em que o sujeito s conhece as 
restries da represso externa, onde os valores e direitos do outro no so reconhecidos, onde sempre que h 
proveito pessoal tenta-se buscar meios de transgredir a lei,  caracterstico da inexistncia de um Superego 
adequadamente estruturado. As instituies de crianas abandonadas so freqentemente acusadas de se 
tornarem fbricas de delinqentes. Parece que o processo  previsvel. Se o Superego  o herdeiro do dipo, 
como constitu-lo adequadamente se inexiste a figura estvel de pai e me? No nos referimos  existncia de 
pai e me biolgicos, mas sim  figura feminina estvel que se constituir no objeto de amor. Uma figura 
paterna tambm definida e estvel ser um modelo e um competidor no plano da fantasia. Sabemos que nessas 
instituies os mdicos, as enfermeiras e atendentes mudam constantemente. No h. permanncia de modelos 
parentais. Possivelmente uma cozinheira ou um motorista estveis poderiam proporcionar ao grupo de crianas 
os modelos de homem ou de mulher com os quais constituiro a organizao edpica. A organizao da atrao 
e os conflitos edpicos so estruturados pela fantasia. No h sequer a necessidade de que sejam casados. Os 
modelos adequados de homem e mulher propiciam a formao do processo. 
1.2.8 Sntese adaptativa do dipo masculino 
A erotizao flica leva ao amor pela me. Esse amor, embora posteriormente reprimido, cria o modelo bsico de 
atrao masculino-feminino.  aprendendo a amar em casa que, aps a adolescncia, poder haver a busca de 
um parceiro heterossexual adequado fora. Mas esse amor leva  organizao de um tringulo onde o pai, 
possuidor da me, representante da lei, interdita os desejos do filho. Do conflito surge o temor da castrao. A 
fora desse temor, bastante severa para um menino normal, o leva num primeiro momento a se identificar 
defensivamente com o pai, construindo assim sua organizao masculina inicial. Como a identificao no 
elimina o conflito, ele  levado a reprimir o desejo pela me. Essa represso tem duas conseqncias 
evolutivas: em primeiro lugar, propicia a sublimao e a entrada no perodo de latncia; em segundo lugar, 
cristaliza a constituio do Superego. 
Freud traa um modelo evolutivo diferente para a sexualidade feminina. Discorda da proposta de Jung, para 
quem o modelo edpico feminino seria igual ao contrrio do masculino. Jung d tambm, para a 
caracterizao do feminino, o nome de complexo de Electra, que  recusado por Freud. Com o advento da fase 
flica, Freud afirma que a menina tambm vivencia a relao flico/castrado. O conhecimento da vagina  
inexistente para a criana, e a erotizao clitrica levar a menina a fantasiar a posse de um pnis. O clitris 
configura-se como um pns diminuto que tenderia a crescer e tomar-se igual ao dos meninos. E a nfase na 
valorizao flica seria similar para a menina e para o menino. O erro de interpretao anatmica, associando 
clitris/pnis, manteria na menina a fantasia de ser flica. Mesmo com a percepo inicial da castrao 
feminina, ainda permanece para as crianas a fantasia de que as mulheres queridas so flicas. Apenas as 
outras so castradas. 
A sexualidade feminina  ento, nesse momento, flica. O clitris  um correlato flico. O desejo de que ele 
cresa  progressivamente frustrado pela percepo da realidade, e a menina descobre-se castrada. Com isso 
no descobre ainda a sua feminilidade, mas lana-se magicamente  conquista do rgo valorizado. Dentro do 
grupo familar, o pai  o representante flico. A menina dirige ento a sua afetividade para o pai. No  uma 
atrao direta como aconteceu na relao do menino com a me. No  o pai que  diretamente buscado, mas a 
posse do pnis, representante da fora e do poder. 
Para o menino, o temor da castrao determina mecanismos de soluo do complexo de dipo e a entrada na 
latncia. Para a menina, a percepo da castrao  o que a mobiliza para a busca inicial do pai. Nessa busca, 
fica-lhe claro o vnculo existente entre o pai e a me.  a me quem o atrai com sua feminilidade. A menina 
passa ento a imit-la, introjetando os valores femininos maternos, tornando-se com eles atraente para o pai. 
Veja-se que inexiste o temor da castrao a mobilizar, como defesa, o mecanismo de identificao. Os valores 
femininos vo sendo progressivamente adquiridos dentro do processo de conquista. A interdio ao pai, que 
a me faz, tambm no decorre de fantasias filogenticas similares s que o menino vive. Parece decorrer de um 
progressivo processo de conscincia social da interdio. 
Nesse momento de descobrir-se castrada, Freud constata que podem ainda haver duas outras solues, ambas 
patolgicas. A primeira  assustar-se diante da comparao com o flico, reprimir a sexualidade como um todo 
e, com isto, reprimir os valores nesse 
26 
27 
momento associados  sexualidade masculina. Neste caso a mulher renuncia  ativao clitrica, tornando-se 
sexualmente fria, passiva e dependente. Uma segunda soluo patolgica, para Freud,  a mulher negar a 
realidade, agarrar-se firmemente  fantasia de ser flica e nela permanecer. Evoluir para vivenciar valores e 
modelos basicamente masculinos, ativos, dominadores, podendo tornar-se propensa ao homossexualismo. 
1.210 A soluo do dipo feminino 
O modelo edpico feminino de Freud tem sido alvo de crticas por boa parte dos continuadores da psicanlise. 
Consideram-no um dos pontos cegos de sua teoria, O prprio Freud, to seguro ao expor os modelos 
masculinos, sempre indica, em seus escritos sobre a sexualidade feminina, que faltam elementos confirmadores 
da teo1ia apresentada. 
Para Freud, o dipo feminino  iniciado quando a menina se percebe castrada. Por no possuir momentos 
crticos de soluo, como o que  dado no modelo masculino pelo temor da castrao, 
o dipo feminino estende-se pelo perodo de latncia. A organizao da sexualidade e identidade femininas  
ento gradual, possuindo dois fechos evolutivos importantes: o primeiro  a transio da sexualidade clitrica 
para a vaginal. Com a puberdade, a vagina sofre uma progressiva erotizao. A gratificao progressiva da 
erotizao vaginal permite uma renncia  ativao clitrica e o abandono da postura flica inicial. A mulher 
pode agora incorporar a vagina em sua organizao da feminilidade. O segundo marco  a vinda de um filho. A 
fantasia bsica da feminilidade  ser frtil, e o filho pode confirm-la. Freud enfatiza que a soluo  
afetivamente mais satisfatria com a vinda de um filho homem: a mulher, em fantasia, teria conseguido ter um 
pnis. 
No h nenhuma grande angstia que mobilize a represso, como ocorre no modelo masculino. Portanto, no 
s a identidade feminina  gradualmente estabelecida como, com a menor mobilizao da represso, a 
capacidade de sublimao fica proporcional- mente inferior  do homem e a formao do Superego se faz de 
maneira menos rgida. Isso poderia explicar, para Freud, a inferioridade social da mulher. 
1.2.11 Os destinos do instinto epistemoflico 
Durante a evoluo infantil, no h uma separao clara entre 
a busca do prazer e a busca do conhecimento. A criana conhece 
aquilo de que gosta. A oralidade inicial  demonstrativa do processo. 
A boca  fonte de sobrevivncia, de prazer e de conhecimento. 
Durante muito tempo, aquilo de que a criana gosta  levado  boca. E o que ela quer conhecer, tambm. 
Progressivamente, a busca do conhecimento e a busca do prazer vo sendo discriminadas. Quando, na 
soluo do complexo de dipo, a represso se manifesta, apenas o vnculo sexual  reprimido. A busca do 
conhecimento, o instinto epistemoflico, no s  preservada como recebe novo impulso, dado pelas 
sublimaes da sexualidade. Esta  a expectativa num processo normal de desenvolvimento. 
Mas as angstias e fixaes das etapas anteriores podem no ter permitido a necessria dissociao entre o 
conhecimento e o prazer. Neste caso, o desenvolvimento da fase flica poder interferir na organizao do 
conhecimento. Freud analisa essa perturbao em seu estudo sobre Leonardo da Vinci, concluindo que, se 
indissociados, a represso poder atingir tanto a sexualidade quanto o conhecimento ou no se manifestar, ou 
seja, o desenvolvimento afetivo  retido em um nvel pr-edpico, onde a sexualidade e o conhecimento 
evoluem indiferenciados. 
Quando a represso se manifesta, o conhecimento que est associado  sexualidade  sentido como perigoso. 
No se pode buscar o conhecimento, tanto quanto no se pode cometer o incesto, O pensamento queda 
reprimido junto com a sexualidade, e o pseudodbil eclode. A criana, que antes tivera um desenvolvimento 
intelectual sem grandes perturbaes, torna-se agora idiotizada. Vrios autores tm-se preocupado com o tema 
da pseudodebilidade. Embora Freud descreva sua emergncia na fase flica, os trabalhos de Maud Mannoni 
mostram como a emergncia do pensamento  interdependente com a organizao da fantasia familiar. Tivemos 
a oportunidade de discutir alguns desses aspectos no segundo volume desta coleo, quando discutimos a 
psicologia da gestao e o contexto da fantasia familiar nas relaes iniciais. 
Para Freud, h a possibilidade de a represso ser insuficiente, O pensamento  ento o que evolui, carregado 
de sexualidade. A sexualidade genital s existe aps uma adequada elaborao do dipo. Se no houve a 
represso, o dipo no se orniza, e a sexualidade  infantil, parcial e difusa.  esta sexualidade que animar o 
pensamento. Descobrir, criar, estabelecer relaes intelectuais tero uma dimenso orgstica. O prazer advir 
do pensamento, e genitalmente o sujeito ser frio. No nos  difcil encontrar este modelo em alguns 
intelectuais e enxadristas conhecidos. 
1.2.12 Melanje Klein e a sexualidade feminina 
Melanie Klein, ao dedicar-se ao trabalho com crianas, pde desenvolver um largo trabalho terico, partindo 
de Freud, confir 28 
29 
mando-o, aprofundando os conhecimentos da psicanlise, descrevendo novos modelos de compreenso da 
mente infantil e, em alguns aspectos, propondo solues evolutivas diferentes das descritas por Freud. No 
desenvolvimento da sexualidade, Melanie Klein j descreve a percepo triangular filho-pai-me na passagem 
da psio esquizo-paranide para a depressiva, entre o terceiro e quarto meses de vida. reramos, portanto, 
permeadas por fantasias orais, relaes edpicas precoces. No centro das relaes afetivas desenvolvidas com 
a me existe a amamentao. Os mltiplos aspectos de bondade sentidos na relao com a me ficam 
cristalizados na fantasia de que  boa porque alimenta. Quando o pai entra na percepo da criana, ao ser 
sentido como bom,  fantasiado como capaz de prover alimento. Para Melanie Klein, as fantasias ou imagens 
bsicas das relaes humanas j esto presentes no nascimento, ainda que em nveis que poderamos chamar 
de primitivos. Tomaro suas formas definitivas com o desenvolvimento das relaes afetivas, do Ego e suas 
funes, e dos testes de realidade. Por isto Melanie Klein pde descrever estas fantasias primitivas dos pais 
unidos como fantasias de coito. J h a imagem de que o pai tem um rgo penetrante, que pode ser 
prazerosamente colocado dentro do corpo da me. Mas esta fantasia de relao sexual  uma fantasia oral, ou 
seja, o prazer que o pai proporciona ao penetrar na me  o prazer de alimentar ou abastecer. No  raro 
encontrar em pacientes muito regredidos fantasias ou sonhos onde as imagens do pnis e do seio esto 
associadas, em geral descritas como seios cujas pontas so pnis, de onde jorra o leite. Arminda Aberastury, 
outra importante terica da psicanlise, aprofunda os estudos relativos a este perodo, caracterizando neste 
estdio de desenvolvimento um complexo de dipo precoce. 
Os aspectos amorosos ou erticos destas fantasias infantis so fundamentais para o desenvolvimento da 
sexualidade. Mas, como j descrevemos no volume referente s ligaes iniciais com a me, quando 
predominam as angstias, estas fantasias so revertidas, por projeo, em fantasias destrutivas. A penetrao 
j no  prazerosa, mas terrorfica, sdica e destrutiva. Os aspectos positivos e prazerosos destas fantasias 
predominam no desenvolvimento normal da criana. Mas, mesmo nos casos normais, os aspectos 
persecutrios coexistem. E das solues dadas, dentro da ambivalncia afetiva inicial, que emergir o modelo 
de personalidade. 
Embora no seja propsito deste trabalho desenvolver o modelo de Melanie Klein, ela tem sido citada 
freqentemente, face  importncia de suas contribuies. No nos aprofundaremos em seus estudos sobre a 
evoluo da sexualidade. Podemos dizer que os aspectos evolutivos masculinos, descritos por Freud, esto 
presentes 
30 
dentro de sua teoria. A principal discrepncia se refere  organizao feminina. Melanie Klein parte do 
trabalho, Inibio, sintoma e angstia, de 1926, onde Freud diz que no se pode falar de uma angstia de 
castrao nas meninas, porque nelas a castrao j  um ato consumado. Definir o complexo de castrao, sem 
a correspondente angstia,  manter a definio do processo ao nvel apenas da inveja. E certo que a mulher 
tem inveja do pnis, e Melanie Klein concorda com isso. Mas para ela tambm  certo que o homem possui um 
sentimento de inveja similar, ou seja, a inveja da fertilidade feminina. Quando estudamos psicologia da 
gestao, vimos inclusive como este sentimento  importante na formao do amor paterno, durante a 
gestao. E para o desenvolvimento da sexualidade feminina deve haver uma angstia correspondente ao 
temor de castrao masculino. Qual seria ela? 
Melanie Klein expe em 1928, nos Primeiros estgios do conflito edpico, a tese de que o medo primordial da 
menina  ter o interior de seu corpo roubado e destrudo. Ela parte tambm de um temor que Ernest Jones 
descreve em 1927, ou seja, um temor fundamental que as mulheres tm de serem privadas de sua gratificao 
libidinal. Jones chama a este pavor de Aphanisjs, vendo nele a primeira e predominante situao de angstia 
feminina. Melanie Klein verifica, ento, que este medo de perda da gratificao libidinal est ligado ao temor de 
destruio dos rgos de seu corpo ligados  obteno desta gratificao. Como os genitais femininos so 
internos e de conhecimento infantil tardio, o temor se concretiza na fantasia de ter o interior do corpo 
destrudo. 
A perda do seio , talvez, a principal frustrao sofrida durante todo desenvolvimento humano. Com a perda 
da principal fonte de gratificao oral, as outras zonas ergenas, anal e genital, ficam estimuladas. Melanie 
Klein descreve que a partir da frustrao oral a mulher comea a se voltar para um quadro imaginrio, onde o 
pnis do pai lhe proporcionar uma tremenda e infinita gratif icao oral. Mas como a frustrao oral estimula 
as demais zonas ergenas, o pnis paterno converte-se em objeto de desejo de tendncias no s orais, mas 
anais, uretrajs e genitais. Aqui devemos refletir um pouco sobre as modalidades de relaes. A sexualidade 
oral  receptiva, e a sexualidade genital feminina tambm. Vemos que paralelamente aos traos femininos 
filogeneticamente dados temos uma frustrao numa modalidade receptiva, e a estimulao de uma genitalidad 
que tambm  receptiva. Transpor o desejo pelo seio ao desejo pelo pnis fica facilitado. Como a modalidade 
masculina  intrusiva, tal relao n se desenvolveria. 
A me  fantasiada como tendo em seu interior o pnis paterno, portanto, paralelo ao prazer que a figura 
materna proporciona, ela 
31 
desperta imensa inveja. Nos momentos de frustrao, a me , ento, atacada em fantasia, em seu interior. A 
inveja, tal qual descrita por Melanie Klein,  um sentimento primitivo onde se busca absorver o que o outro 
tem de bom, e no sendo possvel, destri-se o que  valorizado, para se eliminar a dolorosa sensao de vazio, 
ou de inferioridade. A descrio kleiniana  complexa, envolvendo no s a inveja do pnis, mas tambm a dos 
bebs que a me  fantasiada contendo em seu interior. Por ora, tentaremos colocar o processo dentro de um 
esquema mais simples. Estes ataques, dirigidos ao interior da me, propiciam a fantasia de que a me foi 
destruda em sua fonte de obteno de prazer, de que os pnis e bebs que ela contm foram igualmente 
destrudos. A criana ainda funciona muito por defesas esquizo-paranides, ou seja, mantendo uma ciso 
onde os pais bons so preservados durante os momentos de prazer, e os pais maus so atacados nos 
momentos de angstia, de dor ou de inveja. Paralelamente, no pode ser suportada a manuteno da fantasia 
de que os pais foram destrudos, e a defesa  por projeo, ou seja, a criana no se percebe, a partir da defesa, 
como tendo destrudo os pais, mas sim como tendo sido atacada e destruda pelos pais. Se todo ataque foi 
voltado para o interior da me, portanto, para o pnis que ele contm, no retorno paranide a criana se 
fantasiar como tendo tido seu interior destrudo pela me, e como podendo tambm ser destruda por um 
pnis mau que a penetrar. A est, portanto, o equivalente feminino do temor masculino de castrao: o medo 
de estar internamente destruda, de no ter prazer, de no ter fertilidade e de no poder receber o pnis (seja 
porque seu interior destrudo o destruir, seja porque o pnis  fantasiado como destrutivo). 
A descrio kleiniana desta organizao edpica precoce implica um modelo diferente do freudiano para a 
evoluo do dipo clssico, ou seja, das fantasias organizadas no perodo flico. Em primeiro lugar, a 
erotizao decorrente da frustrao oral d  mulher um conhecimento precoce, ainda que fantasiado, de seus 
genitais femininos internos, ou seja, a erotizao feminina  anterior  masculina. Vimos que, para Freud, a 
mulher num primeiro momento se fantasiava como flica para, s a longo prazo, integrar sua genitalidade 
feminina. Em segundo lugar, a competio ou o conflito estabelecido com a me  precoce, sendo reativado na 
vivncia do dipo clssico. Sabemos que as fantasias mais precoces so mais onipotentes, portanto a 
destrutividade  mais violenta. Isto implica que na competio existente no dipo clssico (fase flica) o temor 
feminino de ser destruda pela me  maior que o temor masculino de castrao (temor estabelecido 
evolutivamente mais tarde, portanto menos radical). Se a represso, a formao do Superego e as subli mae 
so proporcionais ao temor, como o descreve Freud, Melanie Klein conclui que as mulheres seriam, ento, 
portadoras de um Superego mais rgido e mais capaz de sublimar. E, portanto, uma posio contrria s 
descries freudianas. 
Vimos, ento, que a menina vive a ambivalncia de ter introjetado tanto um pnis bom quanto um mau. Esta 
ambivalncia a coloca diante da necessidade de fazer uma espcie de teste de realidade, ou seja, o 
relacionamento sexual, basicamente o primeiro relacionamento, ser a concretizao das fantasias positivas ou 
destrutivas. Para Melanie Klein  fundamental que a mulher tenha as experincias sexuais iniciais com um 
parceiro adequado, um representante simblico do pnis bom, para que as angstias destrutivas se 
dissolvam, e ela possa caminhar para uma voluptuosidade intensa, que ultrapassa a gratificao puramente 
libidinal, abrindo caminho para relaes amorosas duradouras e satisfatrias. O menino tem o pnis e a ereo 
como suportes das fantasias masculinas. A mulher no pode ter confirmao equivalente. O teste de realidade 
torna-se, ento, fundamental. Aqui podemos fazer uma comparao interessante entre as posies de Freud e 
de Melanie Klein. Freud descreve que  importante para a prontido genital feminina, ou seja, para o trmino 
do complexo de Edipo, a vinda de um filho que seria o equivalente simblico de ter um pnis. Por isso  feita a 
colocao que o processo ter final mais satisfatrio se o filho for homem. A colocao kleiniana nos parece 
mais justa. Se a fantasia bsica do funcionamento genital masculino est ligada  ereo, parece que a fantasia 
fundamental feminina  a fertilidade. Neste aspecto, parece-nos que Freud percebeu bem a importncia da 
vinda de um filho, mas nos parece mais justo definir este valor correlacionando-o a um teste de realidade, onde 
a fantasia bsica de fertilidade  finalmente concretizada. 
1.2.13 Psicopatologia da fase 1 lica 
O organizao do tringulo edpico e sua soluo satisfatria so condies indispensveis para uma 
evoluo psquica sadia. Toda vez que falamos em estdios universais de desenvolvimento, pressupomos um 
elemento maturacional de base, sustentando a organizao psquica decorrente. Embora a durao de cada 
fase possa variar de criana para criana, as variaes so efetuadas dentro de um perodo mdio comum. 
Assim, uma adequada vivncia da fase flica fica condicionada  evoluo das fases anteriores,  organizao 
das relaes presentes e aos impulsos da libido genitalmente centralizados. Este ltimo elemento, a erotizao 
genital,  o que consideramos o fator maturacional de base. No estamos tomando 
32 
33 
o termo maturao dentro de um modelo biolgico rgido. Estamos com ele descrevendo a emergncia de um 
impulso ertico definido, com surgimento por volta do quarto ano de vida, e que serve de impulso  
organizao preliminar da sexualidade. 
Se a erotizao infantil faz parte do processo natural de desenvolvimento, sendo portanto espontnea, a 
decorrente relao objetal no o . H a necessidade de que a evoluo das fases anteriores tenha sido 
satisfatria, e de que as figuras parentais presentes suportem a organizao do tringulo.  impossvel prever o 
nmero de fatores que podem interferir no processo. Parece um dado objetivo dizer que um pai violento, 
destrutivo e castrador no permitir ao filho o estabelecimento de qualquer competio. Mas o processo  
organizado ao nvel da fantasia e das mensagens transmitidas, tornando difcil separar o peso dos fatores de 
realidade e de fantasia. Ser que a percepo do pai  adequada? Como figura bsica do relacionamento inicial, 
cabe  me introduzir o pai para a percepo da criana, ou seja, normalmente a viso que a criana tem do pai 
 aquela que a me transmitiu. Uma mulher frgil, submissa, dependente, que s pode ver o marido como uni 
senhor inquestionvel e absoluto, transmitir ao filho esta imagem. Para a fantasia da criana, o oponente ser 
tornado terrvel. Como enfrent-lo numa competio, mesmo que simblica? A atrao pela me morrer antes 
de ser adequadamente configurada. E o que dizer de um pai desvalorizado, frgil, desamado, que no se possa 
constituir em um modelo adequado para a identificao? A sexualidade poder surgir dirigida para a me, mas o 
modelo masculino no surgir para lhe dar forma. No organizar o dipo, permanecendo eternamente ligado  
me numa sexualidade infantil. Se a me for o elemento desvalorizado, no ser digna de se constituir em 
objeto de amor. Um pai possessivo e sedutor poder canalizar para si o erotismo que deveria ser dirigido  me, 
configurando um dipo invertido, com masculino e feminino no-estruturados. 
Os fatores acidentais tambm podem ter seu peso desagregador. Um acidente real neste perodo pode ser 
fantasiado como conseqncia do dio infantil. Por exemplo, o falecimento do pai neste momento em que o 
menino o ama, mas tambm o odeia como competidor, pode concretizar a fantasia mgica de que a criana o 
matou. Um acidente com a criana tambm poder exacerbar e concretizar o temor de castrao. O ataque fsico 
real, seja um atropelamento, seja uma cirurgia, fortalece a idia de que seu corpo pode ser atacado e destrudo. 
A imagem da castrao que permeia sua fantasia assume perspectivas de se tornar um ataque real. Por isto, 
durante o perodo edpico as cirurgias so desaconselhveis, exceto,  lgico, nos casos de urgncia. 
Julgamos que muitos pro biema 
emocionais seriam evitados se as cirurgias infantis contassem com um respaldo psicoprofiltico, Vemos 
tambm com muito temor a realizao de operaes de fimose durante este perodo: no s h a concretizao 
do ataque, como o rgo central da fantasia  atingido. Como os processos inconscientes funcionam por 
condensaes e deslocamentos simblicos, outras cirurgias podero originar a mesma angstia. 
1.2.13.1 A histeria 
A perturbao bsica do perodo  a incapacidade de suportar a organizao edpica e sua evoluo. A 
sexualidade permanece difusa, incestuosa e sem adequada configurao de objeto. As fantasias de castrao 
ou retaliao permanecem ameaadoras, o risco de sua concretizao se atualiza em cada angstia. Todos 
estes processos so inconscientes, portanto a erotizao e os temores aparecem sob a forma de sintomas, ou 
seja, atravs de substitutos simblicos do conflito internamente estabelecido, O desejo e a interdio, o Id e o 
Superego no so adequadamente organizados por um Ego frgil. A patologia tpica do perodo  a histeria, 
que se apresenta principalmente em dois grupos principais de sintomas: as somatizaes e as fobias. 
A somatizao do histrico  um equivalente simblico do ataque de castrao, ou seja,  uma punio dirigida 
ao corpo face  sexualidade incestuosa que no se pode organizar, Esta somatizao  fantasiada, atingindo a 
musculatura estriada. No h um dano fsico real ao rgo, como ocorre em somatizaes decorrentes de crises 
nos perodos anteriores, onde a musculatura lisa, involuntria,  atingida de fato (por exemplo, as lceras ou 
perturbaes alrgicas da pele e aparelho respiratrio). A histeria  um quadro clnico definido desde a 
antiguidade grega. Para a medicina da poca, inexplicavelmente as mulheres tinham convulses, paralisias, 
cegueiras e outros sintomas, sem que houvesse causa orgnica aparente. Curiosamente, a patologia s era 
descrita nas mulheres, o que os levou a teorizar que devia ser decorrente de alguma perturbao da genitlia 
feminina. Estabelece-se a hiptese de que perturbaes do tero ou de seus fluidos interfeririam no 
funcionamento psquico acarretando as distores observadas, O termo histeria significa tero em sua 
origem etimolgica, e, at o advento da psicanlise, acreditavase que apenas as mulheres fossem sujeitas ao 
fenmeno. , inclusive, curioso como alguns grupos mantm at hoje o tabu grego relativo  origem destas 
perturbaes mentais. Muitos grupos camponeses ainda acreditam que lavar a cabea durante o perodo 
menstrual poder fazer com que o fluxo suba  cabea, causando 
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a loucura. As perturbaes na sexualidade apresentadas pelo histrico tambm sempre foram objeto da 
observao leiga. Tanto que durante sculos, quando uma mulher comeava a apresentar perturbaes, o 
comentrio usual era o de que faltava homem, O que no se percebeu era a incapacidade do histrico para 
organizar e usufruir de sua sexualidade, por isso no podia busc-la na vida prtica. O raciocnio ingnuo, ao 
perceber o processo de forma externa, entendia exatamente o contrrio, ou seja, que a falta do desempenho 
sexual prtico era o que provocava a sintomatologia. Julgamos que, at Freud, num primeiro momento, foi 
contaminado por este mito, quando descreve a masturbao e o coito interruptus como causas de 
perturbaes erticas. Voltando ainda ao pensamento grego, se considerarmos as represses s quais foram 
submetidas as mulheres nos ltimos milnios da civilizao (e a mulher ateniense  um exemplo tpico), 
notadamente as represses ligadas  sexualidade e  possibilidade de se constituir como sujeito, no  difcil 
entender por que os conflitos da organizao edpica atingiam particularmente a mulher. 
Outro aspecto relevante a salientar  a dramaticidade do histrico. A erotizao est presente, difusa e 
conflitiva. Ele cria como que um cenrio, arma o palco, prepara o clima, mas no configura o protagonista. Tem, 
ento, a necessidade de se desculpar, surgindo ento o sintoma. O curioso  que o sintoma, formado como 
conseqncia de um conflito interno,  em geral adequado s expectativas da platia. Os desmaios, as 
convulses, as paralisias, todas foram caractersticas femininas de respostas s crises, respostas estas que 
eram at socialmente esperadas. Desde o nvel mtico das convulses na antiguidade, at o charme do desmaio 
da donzela, tudo estava dentro das expectativas. As somatizaes caractersticas  tais quais foram descritas 
por Freud e Charcot  no so mais freqentes nos consultrios. No deixamos de encontrar alguns tremores, 
ausncias, perturbaes respiratrias ou imobilizaes momentneas, mas dificilmente encontraremos os 
ataques tpicos do momento vitoriano que Freud viveu. H alguns anos, pudemos atender um caso que parecia 
haver sado dos manuais do incio do sculo. Curiosamente, a cliente pertencia a um grupo germnico do sul, 
que preserva ainda caractersticas da ustria do incio do sculo. Nossa cultura no mais valoriza esses 
sintomas. As desculpas so socialmente adaptadas. No  difcil entender a causa. Como vimos no primeiro 
volume, o sintoma  sempre um compromisso entre um desejo e uma interdio. A interdio  superegtica, 
ou seja, sofre modulaes dos valores culturais introjetados. Alm disto, devemos considerar que, se num 
primeiro momento o sintoma surge para resolver um conflito interno, num segundo o sintoma pode 
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gerar o que Freud chamou de vantagem secundria da neurose, ou seja, pode gerar uma recompensa externa, 
que fortalece a manuteno da neurose e seus sintomas. Por exemplo, um acidentado de guerra, que se 
desestrutura psiquicamente, ao ser tratado em um hospital da retaguarda, dificilmente sair da crise. Ao sarar, 
ser novamente remetido para a frente de batalha. O sintoma, que foi originado pela presena de fantasias 
ligadas  morte ou destruio, concretizadas no momento do acidente, servir agora para a obteno de 
vantagens externas de conforto e proteo. Uma mulher, dentro de uma relao conjugal dolorosa, pode sofrer 
uma regresso e entrar em uma crise histrica, com paralisias ou convulses. O sintoma tambm surge para 
proteg-la de angstias internas, atualizadas pelos conflitos conjugais. Mas o carinho e a solicitude que o 
marido pode passar a demonstrar, diante de sua doena, converter- se- em uma vantagem secundria do 
sintoma, que o estabilizar. Vejam que tanto ao nvel de interferncia superegtica quanto ao nvel da 
vantagem secundria temos elementos que foram uma adaptao social do sintoma. 
Como os sintomas ficariam atualmente? Uma estrutura histrica no permite a plena vivncia da genitalidade, 
portanto a estrutura conjugal estar permanentemente gerando angstia, o atualizar os conflitos edpicos. O 
antigo desmaio converte-se em alguns tipos de abnegao dramtica. Priva-se ostensivamente de sua vida, 
converte-se em me abnegada, em motorista da famlia, num correr para l e para c atrs de cuidar das 
mltiplas atividades das crianas e dos pequenos afazeres burocrticos da famlia. Vtima dos cursos de dana, 
de natao, de jud, de msica, das tarifas de luz e telefone, que se transformam em penosas atividades a 
serem realizadas. Os filhos so permanentemente assediados, cortejados, agarrados, mas numa relao onde 
permanentemente so mantidos infantis. No lhes  permitido crescer, porque isto configuraria a permisso 
para a entrada na sexualidade, e a definio da sexualidade atualizaria as vivncias maternas edpicas. 
Freqentemente as relaes patolgicas vividas com os filhos so atualizaes das vivncias patolgicas que 
foram vividas em fantasia com os pais. Estamos diante de uma me que vive uma paralisao simblica. Ela se 
encontra privada ou proibida de algo que gostaria de fazer, mas que no sabe bem o que . A interdio, a 
privao, o corte, a paralisia, todos so elementos simblicos prximos da castrao. Encontramos tambm, 
neste padro de mulher, a sexualidade difusa que caracteriza  histrico:  uma bela abnegada. 
Nossa cultura tambm permite, num primeiro momento, a sexualidade fria oculta por detrs de uma mscara de 
seduo exuberante. Exibe-se aos homens, usa roupas provocantes, espalha seduo, 
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mas impede o contato final. Quando o faz,  frio. O tipo feminino  mais visvel, mas o masculino tambm existe. O 
curioso  que o histrico, por no definir o objeto adequado para a sexualidade, permanece numa indiferenciao que o torna 
atuando sedutoramente, tanto na relao com o seu prprio sexo, quanto na com o sexo oposto. Ele se chega, fala 
amorosamente, busca um contato provocante, tanto com os homens quanto com as mulheres que dele se aproximam, seja 
ele homem ou mulher. Os olhares de seduo so sua tnica nos relacionamentos interpessoais. Isto no tem nada a ver 
com o homossexualismo. Temos insistido que a seduo do histrico  difusa e indiferenciada, mas a atuao prtica, 
quando existe, est em geral dentro dos moldes socialmente aceitos. 
Se esta castrao simblica, paralela ao erotismo difuso e dramtico,  uma caracterstica histrica, a fobia tambm o . O 
perseguidor fbico  em geral um animal ou objeto que, ou est ligado a fantasias sexuais, ou  depositrio do temor de 
ataque, original- mente sentido em relao ao pai ou  me. Baratas, lagartixas e outros pequenos animais, que andam em 
buracos, que so sujos e feios (lembrem-se do paralelismo tica-esttica para a mente infantil), cristalizam o temor da 
vivncia do ato sexual desejado, mas inconscientemente reprimido. Acompanhamos o caso de uma mulher que no abria sua 
janela e calafetava o vo da porta com panos, para impedir que uma lagartixa vinda do jardim penetrasse em seu quarto. 
Envolveu-se depois com um parceiro amoroso muito mais velho que ela, ou seja, sintomaticamente buscou uma relao 
com um substituto paterno. A partir do novo sintoma, o anterior deixou de ter sentido. O quarto pde ser aberto para o 
sol. 
Um caso clssico de fobia na literatura psicanaltica  o caso j referido do pequeno Hanz. Um garoto de cinco anos no 
consegue suportar o temor de castrao desenvolvido durante a organizao do dipo. Mas este temor no pode ser vivido 
diretamente na relao com o pai. Sua exacerbao no poderia ser suportada por um menino pequeno, dependente, que 
necessita permanecer em casa, e que, paralelamente ao temor, ama o pai. O temor , ento, deslocado para os cavalos, 
meios usuais de conduo no incio do sculo. Vrios fatores simblicos permitem o deslocamento do temor. O pai e o 
cavalo possuem pipi grande. O pai possui bigodes, os quais so associados s focinheiras dos cavalos. A viso de um 
cavalo acidentado atualiza em Hanz o desejo de matar o pai, e, em conseqncia, o temor de ser morto ou castrado por ele. 
O caso de Hanz  longo, complexo e de um simbolismo belssimo. Aconselhamos a leitura deste trabalho de Freud 
(Anlise da fobia de um menino de cinco anos  1909), bem como a de uma anlise crtica 
que lhe  feita por Maud Mannoni em A criana, sua doena e os outros (Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1971). 
1.2.13.2 Os sintomas na criana 
Os quadros clssicos da psicopatologia normalmente eclodem aps a puberdade, ou seja, a evoluo afetiva vai-se 
organizando at uma primeira prontido, dada pelo encerramento da fase flica e incio do perodo de latncia. Dentro 
destas etapas iniciais ficam estabelecidos os pontos de fixao que podem originar ncleos patognicos, configuradores de 
um quadro clnico. O perodo de latncia  uma etapa que no gera novas relaes objetais. Temos, ento, que normalmente, 
aps a ecloso sexual da adolescncia, as vivncias no-resolvidas no passado emergem. Qualquer acidente emocionalmente 
traumtico, como, por exemplo, a morte de uma pessoa amada, poder gerar uma ahgstia to intensa que o indivduo 
regredir a um modelo passado, atualizando as fantasias e as defesas daquele ponto de fixao. Poder, ento, eclodir um 
surto melanclico, ou uma crise histrica, ou qualquer quadro clnico relativamente configurado. Temos, ento, uma pessoa 
que bem ou mal enfrentou as vivncias das vrias fases de desenvolvimento e que, quando regride, traz estas experincias 
para serem modeladas pelas fantasias e defesas do ponto de fixao. 
No caso da criana, cujo desenvolvimento  ainda um processo, os sintomas so freqentemente organizados ao nvel 
corporal, ao nvel de um Eu ainda muito concretamente correlatado ao corpo em suas interaes com o mundo. As 
perturbaes emocionais atuam diretamente na vivncia do corpo, na aquisio do real, ou seja, na compreenso das 
relaes do mundo externo e nas vivncias interpessoais. Por isso os problemas escolares so as principais queixas trazidas 
na procura de uma psicoterapia infantil. As dispraxias, as dislexias, a hiperatividade e os traos regressivos com 
caractersticas autistas combinar-se-o na sintomatologia expressa pela criana. No Instituto de Psicologia da Universidade 
de So Paulo, uma equipe chefiada por Maria Lcia de Arajo Andrade  equipe da qual fao parte  tem-se dedicado a uma 
abordagem particular de psicoterapia dos distrbios psicomotores, tratados dentro de uma abordagem psicanaltica, por 
entender que estes so os principais nveis de configurao dos sintomas infantis. 
O que  afinal de contas uma dispraxia? E a incapacidade de dar uma finalidade precisa ao gesto. Implica perturbaes do 
esquema corporal, das relaes espao-temporais, portanto da lateralidade, do equilbrio, do ritmo, da motricidade e 
interfere ainda na reversibilidade. Mas como organizar o mundo, orientar-se nele, se 
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o eu no est configurado, se o vnculo simbitico com a me n foi rompido, se a vivncia do Edipo no permitiu a entrada 
da 1 que organizar a afetividade e o mundo? Como mover-se livremen pelo mundo, se o movimento atualiza fantasias de 
destruir ou s destrudo? O distrbio psicomotor  o sintoma e no o problem  preciso organizar a afetividade, para que o 
corpo possa exp rienciar-se tanto numa relao consigo mesmo quanto na relao co o outro e com o mundo. A perturbao 
do disprxico no refle uma falta de experincia para o aprendizado. Qualquer crian normal organiza, com os meios  
disposio, todas as situaes aprendizagem motora que lhe so necessrias. Falta ao disprxico possibilidade emocional de 
vivenciar a experincia. 
Ao dislxico, freqentemente com traos disprxicos, cabe mesma sina. No lhe  possvel entrar para o mundo dos smboh 
das regras, da lei, se a castrao simblica no lhe foi permitic se o dipo no lhe define o papel, se a latncia no lhe 
impulsio o conhecimento. O conhecimento fica perigoso. Se seu sexo n teve uma marca simblica configuradora, como 
marcar o paj com seu pensamento? A dislexia pode estar como o sintoma, smbolo, o enigma proposto por um eu que 
busca se configur mas no pode. A hiperatividade poder tambm advir de origc emocionais similares s que produzem a 
dispraxia e a dislexia. Toc estas perturbaes infantis so sintomas, portanto processos defensi que protegem de vivncias 
dolorosas. S nos casos especficos poc remos definir o temor, a fantasia e a organizao das defesas. importante salientar 
que, nestes quadros, o distrbio emocional pc estar superposto ao orgnico. 
1.2.14 Leituras recomendadas 
1. Dolto, F. Psicanlise e pediatria. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1972. 
2. Erikson, EH. Infncia e sciciedade. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1971. 
3. Freud, S. Trs ensaios para uma teoria sexual. 1905. 
4. Freud, S. Teorias sexuais infantis. 1908. 
5. Freud, S. Anlise da fobia de um menino de cinco anos (O pequ Hanz). 1909. 
6. Freud, S. Uma recordao infantil de Leonardo da Vinci. 1910. 
7. Freud, S. A organizao genital infantil. 1923. 
8. Freud, S. A dissoluo do complexo de dipo. 1924. 
9. Freud, S. Algumas conseqncias psquicas das diferenas sexuais an micas. 1925. 
10. Freud, S. Sobre a sexualidade feminina. 1931. 
11. Klein, M. Psicanlise da criana. So Paulo, Mestre Jou, 1975. 
12. Mannoni, M. A primeira entrevista em psicanlise. Rio de Janeiro, Campos. 1981. 
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